Essa noite não pude dormir. Sem que tivesse tivesse planejado fiquei em vigília pensando em minha filha amada que descansou no Senhor e lembrando como tudo aconteceu há exatamente um mês atrás. Orei, chorei, chorei, pensei, lembrei, chorei. Li dois capítulos perfeitos do livro Aliviando a Bagagem, de Max Lucado, intitulados Eu o Levarei para o Lar e Quase Céu, que falam sobre o fardo do túmulo e o fardo da saudade.
Depois de chorar mais um pouco, comecei a escrever, e claro, chorei sobre o teclado do computador enquanto escrevia e assoava o nariz, e gastava metros de papel higiênico para conseguir ver e respirar normalmente.
Considerando a pessoa chorona e sensível que sempre fui, digo com sinceridade que poucas vezes chorei na presença da minha princesinha. Era como se antes que as lágrimas saíssem ela já as enxugasse e me fizesse sorrir. Às vezes chorava e nem dava tempo de terminar de chorar e ela já estava me motivando a olhar para frente e esquecer o que por alguns momentos me causara tristeza. Nem dava tempo de escrever e já aconteciam coisas boas que precisavam ser relatadas urgentemente (sim, precisamos contar urgentemente as boas notícias de um bebê-milagre). Mas houve algumas ocasiões muito difíceis ao longo dessa caminhada em que foi preciso chorar aos pés de Jesus (daquelas vezes que choramos até ficar desidratados) e foi desses momentos que eu lembrei junto com o choro da saudade da minha pequena.
Depois de chorar, escrever, escrever e chorar, fui salvar o que tinha escrito e achei 2 posts inéditos de quando nossa gatinha estava com um mês de vida na UTI. Então vou postar abaixo as lembranças do começo e do fim da nossa história com nossa amada Vitória de Cristo, aqui nessa terra.
Senhor, seja feita a Tua vontade
Quando vi a Vitória pela primeira vez, em seu primeiro dia de vida, fiquei muito confusa. Cheguei a pensar se havia feito a coisa certa mesmo em permitir que ela viesse ao mundo com vida. Seria certo deixá-la viver com um problema tão grave? Será que eu tinha sido teimosa e louca em lutar durante toda a gestação por sua vida? Ao ver sua cabecinha aberta, tão frágil e diferente, pensei que o melhor mesmo seria que ela estivesse com Deus. Que Deus a levasse. Eu lhe disse que a amava, que a abençoava, e que se quisesse ir com Ele, estava livre. Não ia mais ficar suplicando a Deus que a fizesse viver. Ia deixá-lo decidir as coisas sem ficar lhe dando orientações. No seu terceiro dia de vida, minha médica prescreveu para mim uma medicação para secar o leite, já que não poderia amamentá-la. Já que provavelmente ela não viveria por mais muito tempo - foi o que todos pensaram, mas ninguém falou, inclusive eu. Eu estava com muita dor e cansada de lutar. Dor no corpo e dor no coração. Nem sei o que doía mais.
Mas ela continuou vivendo mesmo assim. Percebi que de fato Deus estava agindo naquela pequena vida. Ele tinha ouvido nossas orações loucas e ousadas para que um milagre acontecesse, para que ela fosse curada. Para que ela vivesse. Deus permitiu que ela nascesse com uma malformação incompatível com a vida. Mas estava fazendo com que ela vivesse. O milagre que pedimos estava sendo feito - mas da forma como Deus considerou melhor.
Foi então que criei coragem de fazer a oração de Jesus: Senhor, que seja feita a tua vontade, e não a minha. Mas é dificil pensar que a vontade de Deus pode ser levá-la. Percebi que passei a maior parte da minha vida pedindo a Deus: Senhor, por favor, faça a minha vontade. Percebi que muitas vezes conversei com Deus tentando convencê-lo que Ele não estava fazendo a coisa certa em minha vida. Tentando dizer para Deus o que fazer, e tentando dizer a Deus como ser Deus.
Três dias após o parto da Vitória, por volta das quatro horas da manhã, acordei e imediatamente pensei nela. Como ela estaria? Será que ainda estava viva? Será que quando fosse vê-la mais tarde ela ainda estaria lá? Como gostaria de vê-la, de tocá-la novamente, segurar sua mãozinha e dizer para ela que a amava.
Fiquei pensando: Que bom que Deus não a levou assim que nasceu. Num momento de fragilidade e tristeza eu pensei que o melhor seria Deus levá-la. Mas agora estava desejando imensamente que ela vivesse. Como estaria triste, com um grande vazio no coração, se ela estivesse morta. Como teria sido triste não conhecê-la com vida. Deus sabia o que estava fazendo. Deus sabia o que era melhor para mim.
Tudo o que estamos vivendo é tão diferente, e eu não sei mais o que é melhor ou pior para mim, para meu marido ou para minha filha. Eu preciso de Deus. Preciso que Ele faça o que Ele sabe que é melhor. Ele é o autor da vida. A Vitória pertence a Ele. Senhor, que seja feita a tua vontade, pois a tua vontade é o melhor.
Muito obrigada pela vida da Vitória!
(fevereiro de 2010)
Mãe e filha juntas e felizes
Hoje foi maravilhoso vê-la mais gordinha e forte. Foi como se ali estivesse uma nova Vitória, pronta a ser novamente descoberta e conhecida. Novas expressões e gestos. Um rostinho diferente, com bochechas mais fofinhas. Carreguei-a no colo, ela começou a ficar incomodada e reclamar. Mudei-a de posição, ela se aquietou e dormiu. Tive novamente a sensação da gestação, de sermos uma coisa só. Não que eu não saiba que ela é um ser diferente e independente. Apesar de sua fragilidade, ela deixa isso claro a todo o tempo, com suas vontades e sua personalidade. Mas senti como se fôssemos uma equipe. Mãe e filha juntas e felizes. Amigas. Muito unidas. Plenas.
Há apenas 3 dias ela estava mal, vomitando com frequência e com inínio de infecção. Foi preciso passar um catéter pela veia até o coração para receber antibiótico. Teve quedas de saturação graves, chegou a ficar roxinha. Precisou colocar um cateter com O2 preso ao nariz. Senti um aperto tão grande no coração. Pedi a Deus que nos desse a alegria de tê-la mais tempo conosco. Mais colos, mais banhos, mais trocas de fraldas. Mais dias no hospital para vê-la. Que ela ficasse boa, tirasse a sonda, tirasse todas aquelas coisas presas ao seu corpo, que fosse livre. Por mais algum tempo, que só Deus saberia o quanto. Hoje quando a vi gordinha e tranquila, concluí que Ele está ouvindo minha oração.
(fevereiro de 2010)






