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Mas eu sou como uma oliveira que floresce na casa de Deus; confio no amor de
Deus para todo o sempre. Salmo 52:8

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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Tempo de viver, tempo de morrer



"Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar". Rubem Alves



(Fotografia: Beth Santos - CMS Photography)

"Quando o Senhor levou Elias aos céus num redemoinho aconteceu o seguinte: Elias e Eliseu saíram de Gilgal, e no caminho disse-lhe Elias: "Fique aqui, pois o Senhor me enviou a Betel". Eliseu, porém, disse: "Juro pelo nome do Senhor e por tua vida, que não te deixarei ir só". Então foram a Betel. Em Betel os discípulos dos profetas foram falar com Eliseu e perguntaram: "Você sabe que hoje o Senhor vai levar para os céus o seu mestre, separando-o de você? " Respondeu Eliseu: "Sim, eu sei, mas não falem nisso".

(...)
De repente, enquanto caminhavam e conversavam, apareceu um carro de fogo, puxado por cavalos de fogo, que os separou, e Elias foi levado aos céus num redemoinho. Quando viu isso, Eliseu gritou: "Meu pai! Meu pai! Tu eras como os carros de guerra e os cavaleiros de Israel!" E quando já não podia mais vê-lo, Eliseu pegou as próprias vestes e as rasgou ao meio. Depois pegou o manto de Elias, que tinha caído, e voltou para a margem do Jordão. Então bateu nas águas do rio com o manto e perguntou: "Onde está agora o Senhor, o Deus de Elias?" Tendo batido nas águas, essas se dividiram e ele atravessou. 2 Reis 2:1-14

Quando Vitória ainda estava conosco, um dia me peguei pensando sobre como seria quando ela tivesse que partir. Sim, porque por mais que não pensemos nisto, tanto nós, como nossos pais, nossos irmãos, nossos filhos, todos, sem exceção, morreremos. Assim como nossos filhos especiais. Só não gostamos de pensar nisto. E eu não queria pensar nunca sobre como seria perder minha amada filha. Queria saborear cada dia da sua vida comigo sem escurecer nossa felicidade com pensamentos tristes, sem preocupações, dentro do possível. Como será o futuro? Não sei, mas até aqui Deus nos conduziu, certamente não vai nos desamparar no tempo que chamamos de futuro. Mas então um dia meus olhos passaram por essa passagem da Bíblia que conta sobre o profeta Elias. Conta o texto bíblico que ele foi um homem que andou tão perto de Deus que não enfrentou a morte, mas foi levado diretamente aos céus. Então me peguei pensando, como gostaria que quando minha filha partisse, fosse desta forma. Que Deus viesse buscá-la e eu a entregasse a Ele, com uma malinha de viagem e recomendações: ela é friorenta, gosta de dormir de bruços, adora suco de maçã. Eu lhe daria um abraço bem apertado, a encheria de beijos e lhe diria: agora vá com Jesus, fique a brincar feliz no céu, e espere pela mamãe. E então ela subisse num carro de fogo e fosse levada aos céus enquanto eu lhe acenasse até a perder de vista... Ah, que bom se pudesse ser assim a morte! Como a despedida para uma longa viagem, mas sem doença, sem dor, sem um corpo desfalecido e já sem vida em nossos braços.

Também me identifiquei muito com Eliseu, o discípulo de Elias, que mesmo sabendo que a partida de seu mestre estava próxima, não queria falar sobre o assunto. Ele queria aproveitar cada instante ao lado de Elias durante seus últimos dias na terra, sem sair de perto dele um único momento. Mas não queria pensar que aqueles eram os últimos dias. Não queria que ninguém o lembrasse disso. Assim também fui eu durante toda a vida de minha filha. Ela estava viva e não queria falar de sua morte. Não queria que me falassem sobre aceitação, sobre despedidas. Mas sabia, em meu coração, que esse dia um dia chegaria.

Em silêncio, algumas vezes, pedi a Deus que quando esse momento chegasse, permitisse que fosse como a partida de Elias, suave, envolta por sua presença de amor.

Há três anos, neste momento, nossa amada Vitória estava vivendo suas últimas horas de vida nesta terra. Estava concluindo sua missão, seu bom combate, estava se despedindo. Na verdade acho que ela já estava mais no céu do que aqui. Estava na UTI, ligada a um monte de aparelhos desde o final da manhã, após algumas das horas mais difíceis de nossas vidas e principalmente da dela, quando acordou pela manhã passando mal, com febre altíssima. Após pela última vez, de uma vez por todas, passar pelo doloroso processo de entrar numa UTI, passar cateter, entubar por causa de um doloroso e inexplicável choque séptico.

Eu já não estava em pânico como das outras vezes. Eu estava tão cansada, assim como ela. Eu estava completamente rendida a Deus, sem ação. Eu somente disse a ela como das outras vezes: "Meu amor, se você quer ficar e lutar, estou aqui ao seu lado e vou lutar junto com você sempre. Mas se você quer descansar, você está livre para partir junto com Jesus. A mamãe vai ficar bem e um dia vai te reencontrar. Você pode ir em paz".

A tarde passou lentamente enquanto ela dormia tranquilamente devido à sedação. Mas o silêncio não me enganava, vendo o saco de coleta da urina ainda vazio após horas recebendo soro e o aparelho de pressão que dava erro de leitura a cada nova medida. O choque estava avançando em seu corpo cansado de tanto lutar.

Ao final da tarde, após receber os resultados dos últimos exames de sangue, Dra. Carolina veio conversar conosco. O choque já havia atingido os rins, que não estavam filtrando adequadamente o sangue - já havia indicação para diálise. Foram feitas tentativas com diferentes medicações para ajudar a pressão a subir e os rins a funcionarem, sem sucesso. Algum tempo depois a médica veio conversar novamente conosco. Para realizar a diálise (que eu sempre temi e pedi a Deus que nunca fosse necessário), a pressão precisava subir, caso contrário ela não resistiria ao procedimento. Só nos restava esperar. Assim que ela saiu, Marcelo e eu nos demos as mãos e oramos. Clamei a Deus em lágrimas por misericórdia. Por favor, não permita que ela sofra mais, ela é tão pequenina, tão doce, tão pura. Preferia eu passar por tudo isso, mas ela não... Faz sofrer a mim, mas não mais a ela. Tem misericórdia, Senhor.

Fui avisar minha sogra, que aguardava na sala de espera, sobre a gravidade do quadro dela. Também choramos, nos demos as mãos e oramos. Quando fazíamos esta oração, Marcelo apareceu na porta da UTI. Chamava-me pois ela estava apresentando bradicardia: uma diminuição importante da frequência cardíaca.

Fui correndo com ele até o quarto. O monitor mostrava seu coraçãozinho desacelerando, dos 130-140 bpm normais, caía para 80~70bpm. A médica apareceu enquanto a frequência continuava caindo, 60~50 bpm, depois tornava a subir um pouco. Ela já estava com muitas drogas fortes responsáveis por fazer subir a pressão e fortalecer o coração. Acho que todas possíveis. Percebi uma movimentação, algumas enfermeiras entraram no quarto com um carrinho e materiais. A enfermeira-chefe pediu que saíssemos e aguardássemos lá fora.

Então percebi o que estava acontecendo e em lágrimas, disse à médica: "Preciso fazer um pedido". Todos pararam e me olharam. "Se o coração dela parar, não quero que ela seja reanimada. Não quero que sejam feitos procedimentos que venham a lhe causar mais dor. Não quero prolongar seu sofrimento. Quero que ela tenha uma morte digna, assim como teve um nascimento digno. Assim como permiti a ela nascer e viver, agora quero respeitar a sua hora de morrer".

A médica explicou que essa desaceleração do coração já era um ritmo de parada e que não poderia nos garantir que não a machucariam para fazer a massagem de reanimação. Que de fato ela não estava respondendo a nada, parecia não ter mais energia para reagir como das outras vezes. Marcelo ainda estava confuso. Conversamos bastante. Marcelo perguntou à médica o que ela faria em nosso lugar. Ela disse que não era mãe mas que, se fosse, achava que tomaria a mesma decisão que eu estava tomando. Conversamos por um longo período, talvez mais de trinta minutos - o que dentro de uma UTI pediátrica cheia é bastante tempo. Dra. Carolina já havia acompanhado Vitória nos dois choques anteriores dos quais ela se recuperara rapidamente, e havia cuidado dela com todo o carinho e respeito. Ela disse que nós havíamos ensinado a ela e a toda a equipe o quanto Vitória era capaz, desde a primeira vez em que ela chegou a UTI e ninguém sabia exatamente o que pensar de uma criança com diagnóstico de anencefalia que brigava tanto enquanto tentavam lhe passar um cateter para receber medicamentos. Que se recuperara tão rápido e recebera alta respirando, comendo, interagindo conosco. Disse que se alguém tivesse dito que não valia a pena entubá-la e trazê-la para a UTI, ela não teria aceitado, pois tinha aprendido conosco o quanto ela precisava dessa oportunidade pois sim, tinha condições de responder. E nas duas vezes em que ficara internada, ela voltou para casa bem, com uma vida boa, feliz. Mas que agora os sinais que ela mostrava é de que não tinha mais reserva para reagir, mesmo entubada e com todas as drogas possíveis para reverter o choque. Com a voz embargada de choro e os olhos marejados, a médica disse: mas ela ainda está aqui, não sabemos por quanto tempo, não sabemos por quantos dias, ela pode reagir, vamos fazer todo o possível para que ela fique bem. Por fim todos concordamos em não interferir com procedimentos mais agressivos como uma reanimação, apenas lhe oferecendo todas as medicações possíveis para sua melhora e sedativos pelo cateter para que ela não sentisse dor.

Uma a uma, as enfermeiras vieram me abraçar. Uma delas falou algumas palavras me parabenizando. Todas foram saindo lentamente, em silêncio. A médica também nos abraçou e nos deixou a sós com nossa menina. Ela dormia serenamente, não apresentava nenhum movimento, eu apenas segurava sua mãozinha ainda quente, completamente imóvel. Ficamos ali, nós três junto dela, Marcelo, eu e minha sogra, Cida. A beijamos, fizemos carinho em seu rosto, em suas mãos, em seus pés. Não lembro bem, mas acho que cantamos. Ela apenas dormia enquanto o respirador mandava oxigênio para seus pulmões e diversas bombas de infusão injetavam drogas por meio do cateter ligado a seu pescoço. Passou-se não sei quanto tempo, talvez 1 ou 2 horas. Fizemos algumas poucas ligações para nossos familiares e para um casal de amigos avisando que ela estava partindo.

Chequei sua temperatura pela última vez, 35,8º C. Ela havia tido um quadro de hipotermia severa poucas horas antes devido ao choque, fazendo pouco mais de 33 ºC, e só se aqueceu com uso de uma manta térmica que agora estava desligada. Liguei a manta térmica novamente, e era como que um barulho de vento, e eu sentia o ar soprando ao redor do seu corpinho enquanto estava ali, debruçada sobre ela. Continuamos ali ao seu lado, lhe dizendo palavras de amor. Deixei minha sogra ficar ao lado de sua cabeceira um tempo, junto do Marcelo. Ela também chorou, se despediu, vai com Deus minha netinha. Te amo!

Seu coraçãozinho ia diminuindo o ritmo lentamente... Como se cada vez ela estivesse mais longe e mais longe, e aquele barulho de vento me lembrava a presença do Espírito de Deus lhe envolvendo. Por alguns minutos parecia que estava em uma outra dimensão do tempo e do espaço. Vai com Deus, meu amor, minha filha, minha menina, voa, você é livre, voa seu voo para a eternidade.

Aqui a morte não reina mais, você pertence a Cristo. Você é livre! Voa bem alto, meu amor, vai com Deus! Aqui não há mais desespero. Aqui não há mais medo. Aqui a morte não está lhe arrancando de nossos braços violentamente, mas eu é que estou a te entregar delicadamente, com todo amor, nos braços de Jesus. Aqui a morte é suave porque é apenas uma sombra da morte, é apenas um sono merecido pra quem tanto batalhou. Voa, voa, você é livre! Você foi criada para voar, para voar bem alto. Como te amamos! Como você nos ensinou. Te amamos, te amamos... Lembra aquela festa que eu lhe disse que seria feita no céu para te receber quando você nasceu? Sim, haverá uma festa no céu para festejar sua chegada, e você nunca vai estar sozinha, como eu sempre te prometi.

Marcelo a abraçava enquanto seu coraçãozinho batia cada vez mais devagar, 40~30, 30~20, 20~10. Como a contagem regressiva para sua partida. Marcelo se debruçou sobre seu rosto e a entregou a Jesus. Ela fez um movimento com o rosto e a boca como se tossisse - como se fosse ali sua alma saindo de seu pequeno e adoecido corpo. E então ela se foi. Para sempre. Para o que chamamos de sempre nessa vida.

Como um passarinho que aprendeu a voar, não fazia mais sentido segurá-la em nosso ninho. Senão a proteção e o amor se tornariam prisão. Ela sempre foi livre para ficar ou partir, e isso também era amor. Por dois anos e meio ela ficou, como um pássaro que se limita a pousar pertinho da gente e ali ficar, quietinho a ganhar carinho, mesmo sabendo que pode voar e ganhar o céu. Mas então, de um dia para o outro, ela simplesmente se foi. Na noite anterior ela estava em casa conosco, nos meus braços enquanto eu velava o seu sono de criança. E no dia seguinte ela estava partindo para sempre.

Chamamos a médica que confirmou que ela não tinha mais pulso. Era por volta de 9h30 da noite. Pediram que saíssemos por alguns instantes para tirarem dela todos os fios, todos os tubos. Logo nos chamaram e nos deixaram novamente a sós. Seu corpo estava envolvido em um lençol branco e seu rosto, completamente sereno. Alguns amigos e familiares começaram a chegar. Chegavam sérios e respeitosos mas logo percebiam a atmosfera de paz e leveza em que estávamos envolvidos. Sorríamos, chorávamos e nos abraçávamos. Cerca de meia hora depois uma enfermeira veio nos explicar que seríamos encaminhados ao Morgue, no segundo subsolo, após a médica liberar uma declaração de óbito para providenciarmos o sepultamento, para evitar a aglomeração de pessoas na UTI. Duas enfermeiras vieram levar seu corpo empurrando a própria cama do hospital, e fomos acompanhando. Antes demos um abraço caloroso na Dra. Carolina, lhe agradecemos por tudo. As enfermeiras já iam entrando no elevador e fui correndo atrás, como se não pudesse deixá-la ir sozinha, como sempre fazia em todas as internações e procedimentos. Muitas pessoas permaneceram conosco até que pouco a pouco os últimos amigos se despediram. Já alta madrugada, fui até em casa com minha sogra para tomar um banho e logo voltamos. Continuei ao seu lado, segurava sua mãozinha, a rodeei de bichinhos de pelúcia, tirei as últimas fotos. Tentei dormir em alguns momentos num sofá que havia na sala ao lado, sem muito sucesso. Fechava os olhos e as lágrimas fluíam lentamente pelos cantos dos olhos. Até que, finalmente, quando o dia amanheceu o carro da funerária chegou para levá-la. Fomos seguindo o carro até o cemitério, onde durante a manhã ocorreu o velório e então sepultamos seu pequeno corpo na terra. Aquele corpo que fora gerado em meu ventre, perfeito a não ser pela ausência do crânio, que impediu o desenvolvimento de seu cérebro. Aquele mesmo corpo que dentro de mim se aninhou e se nutriu por 38 semanas. Que eu cuidei, limpei, alimentei a acarinhei durante 2 anos e meio. Que dia após dia carreguei em meus braços, do qual nem um dia sequer me afastei. Era uma parte de mim que eu ali sepultei também. Uma parte de mim também morria. Mas outra renascia para uma nova vida.

Este foi seu fim e estive a seu lado, do início ao fim. A protegi e zelei por sua vida e por seu bem-estar, até que Deus veio buscá-la. Não mais resisti. A entreguei a Deus porque não estava conseguindo mais garantir seu bem-estar, sua felicidade nessa vida com seu corpinho cansado de tanto lutar e crescer apesar de tudo. E assim eu encontrei a paz.

Algumas vezes, depois que ela se foi, ainda me perguntei: por que foi necessário que ela sofresse antes da sua partida, se era tão pura, tão inocente? E eu mesma me vejo pensando que se não tivesse havido sofrimento, dificilmente eu teria aceitado que era chegada a hora de deixá-la ir. Dificilmente eu a teria entregue com tanta suavidade e submissão a Deus e guardado a lembrança de sua partida como um momento de paz e descanso. Entendi também que ela foi poupada de muitos mais sofrimentos, adoecendo e partindo no mesmo dia

Dificilmente eu não teria me culpado, me perguntando se algo mais poderia ter sido feito. Mas ali eu sabia que tudo havia sido feito e que nada mais adiantaria. Era o seu momento de voltar para Deus. E me consolo pensando que não houve nenhuma dor que ela tenha passado que Jesus também não tenha sentido. Que assim como eu sofri vendo-a sofrer, Deus também sofreu miseravelmente vendo seu Filho sofrer barbaramente, física e emocionalmente, aqui nesta terra. E essa morte trouxe vida após a morte para a minha filha. É nisso que eu creio. Foi essa promessa que me fez andar pela fé durante toda essa dolorosa caminhada. Foi essa promessa que me fez enxergar vida e bênção no meio da doença e da morte.

Deus e ela esperaram pacientemente até que estivéssemos prontos para deixá-la ir.

Foi esse o fim da nossa história que lá em janeiro de 2010, eu comecei a contar aqui e disse que não sabia como terminaria, mas que confiaria que Deus estava conduzindo e fazendo algo grandioso. E Ele fez! Quantas coisas incríveis e maravilhosas eu pude contar a vocês aqui nestas páginas durante estes 2 anos e meio e ainda depois que ela partiu. Como a vida dessa pequena criança foi usada para tocar corações, para sacudir e quebrar paradigmas, para lembrar a tantas pessoas que existe um Deus que nos criou, que nos ama e que nos chamou à existência com um propósito. Sim, se Ele confiou uma missão e um sentido à vida de um pequeno feto malformado com apenas 12 semanas de gestação - um pequeno feto totalmente desprezado e humilhado por esse mundo, uma vida que tem sido tratada por muitos como nada e como lixo, mas que nós amamos e consideramos valiosa, preciosa, como cremos que somos considerados por Deus - Se Ele fez coisas grandiosas por meio dessa pequenina vida, não terá Ele também um sentido, um propósito e uma missão para cada um de nós, que fomos agraciados com o milagre de sermos formados perfeitamente? Se tivemos o privilégio de nos desenvolver a ponto de estar aqui diante da tela de um computador escrevendo, lendo, pensando, chorando? Certamente Ele tem páginas muito especiais a escrever para cada um de nós.

E foi assim que, contando a história de minha filha, eu encontrei a minha própria história. Buscando um sentido para sua vida eu encontrei sentido na minha. Descobri que podia reencontrar a paz após a notícia mais triste que poderia ter recebido, quando no início da uma gestação muito sonhada, ouvi que meu bebê tinha um problema muito grave e iria morrer. Quando parecia que nada mais faria sentido, nada mais voltaria a ter cor, luz e sentido em meus dias...

Apenas vivi um dia de cada vez, e no início de cada um destes dias pedi forças a Deus, e ajuda para enxergar com os olhos da alma aquilo que o coração e a razão nem sempre compreendiam. E o senti de forma intensa e real, a me dar a mão e percorrer junto comigo cada passo desta caminhada.

Entendi que o sentido precisava ser encontrado ao longo do caminho, e não no fim.


Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Eclesiastes 3:1-8



Agradeço, agradeço e agradeço. 
Por tudo que foi vivido. 
Cada dia que você esteve aqui comigo, 
em que você se deixou ser por mim amparada e cuidada. 
Agradeço cada batida de seu pequeno coração neste mundo.

Agradeço o tempo que você ficou 
e o tempo que você partiu. 
Agradeço pelos dias de batalhas e lágrimas, 
e pelos dias de riso e de paz.

Agradeço por ter sido guiada e instruída a te amar. 
A respeitar sua vida, 
e a respeitar a sua morte. 

Agradeço, agradeço e agradeço. 
Agradeço pelo seu descanso 
e pela vida que ainda tenho a viver. 

Sempre carregarei comigo a cicatriz da sua ausência, 
mas essa será também a lembrança 
de que essa vida é imperfeita, cheia de dores
mas única e bela, 
e que precisa ser vivida
seja como for.

Que cada dia seja digno, 
que cada dia seja único,
que cada dia seja sagrado,
que cada dia seja celebrado.

Agradeço o tempo de viver.
Agradeço, agradeço, agradeço.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dois anos de saudade


Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade


Queridos amigos...

Cá estou eu novamente a escrever aqui no blog da nossa princesinha depois de tanto tempo! Dessa vez vou tentar ser breve - já comecei tantas e tantas postagens que nunca termino, pois o tempo aqui tem sido sempre contadinho! e assim o blog tem ficado tanto tempo sem notícias. 

Este mês, no dia 17, completaram-se dois anos de saudade de nossa amada filha. Há dois anos que ela simplesmente bateu suas asas e voou para o céu. Assim, de repente, de um dia para o outro, após uma despedida rápida porém intensa.

Comecei a escrever um relato - mais um - com mais detalhes sobre o dia da sua partida. Ainda não pude concluir - como as conclusões são às vezes difíceis! - mas relembrando pude chorar, me emocionar, sentir novamente a dor da despedida e da falta que essa filha amada e preciosa nos deixou. O tempo às vezes é injusto: a gente vai esquecendo um pouco a dor da perda, como uma cicatriz que vai se apagando, se amenizando, mas isso tem um preço: a gente também acaba perdendo certos detalhes da memória. Às vezes, vivendo certas coisas com Benjamin, fico tentando lembrar como era a rotina com minha princesinha, como era para fazê-la dormir, como era o banho, e para minha surpresa vejo que algumas coisas vão ficando meio apagadas com essa distância que o tempo traz. E é tão bom lembrar como era pentear seus cabelos perfumados depois do banho, abraçá-la bem forte e enchê-la de beijos antes de dormir. Ver seu rostinho de satisfação quando eu lhe alimentava, como tomava com gosto as vitaminas de frutas na mamadeira, até dava uns gemidinhos de alegria, como gostava! Mas aí vem a dor da saudade e a gente fica nesse vai e vem de sentimentos.

Pude enxergar a misericórdia imensa de Deus mais uma vez com a presença de Benjamin em nossas vidas, que tem nos trazido muita alegria e consolo. Ano passado, no dia 17 de julho, estávamos fazendo o 2º ultrassom para acompanhar seu desenvolvimento, com apenas 8 semanas de gestação. Esse ano, 17 de julho foi um dia ensolarado e agradável, pude passear com Benjamin e levá-lo pela primeira vez no parquinho do nosso condomínio!



Nosso amada menino tem crescido sendo muito abençoado por nosso Deus! É um menino forte, muito sadio, muito esperto e atento a tudo, risonho e sensível, um grande presente de nosso Pai para seguirmos em frente com nossas vidas com a motivação de amá-lo, protegê-lo, educá-lo em amor.

Foto: 5 meses!
Prometo vir aqui em breve dividir mais como tem sido estes primeiros meses com ele, são muitas alegrias, e gostaria de dividir mais dele com vocês aqui no blog... mas ao mesmo tempo em que me falta tempo, também prefiro que o blog fique mais com as lembranças de nossa gatinha - afinal a vida segue em frente e tudo passa tão rápido mas aqui será sempre um cantinho para recordar, com o meu tesouro de memórias.




Nestes 2 anos temos aprendido a viver sem uma parte tão importante de nossas vidas, sem a presença de nossa primeira filha em nossa família. Temos recebido muito consolo e bênçãos de Deus nesse tempo, mas a saudade é enorme. 

Após o nascimento do Benjamin, tantas vezes o coração aperta pensando como teria sido maravilhoso se ela tivesse se formado perfeitamente, tantas coisas lindas teríamos vivido a mais com ela, coisas lindas como as que estamos vivenciando com ele.

Mas é certo que ela nos transformou. Nos ajudou a ver a vida com outros olhos, com um pouco mais de amor, menos julgamento, mais compaixão, mais pureza... como ela era preciosa!!!

Lembro quando descobrimos o diagnóstico, quando soubemos que nosso bebê iria morrer, a cada dia que acordava aquilo tudo parecia um terrível pesadelo. Aos poucos Deus foi nos confortando, nos envolvendo com seu amor, seu cuidado, nos ajudando a perceber que tesouro mais precioso que Ele estava nos presenteando. Vivemos coisas tão lindas, era como se um pedacinho do céu estivesse conosco a cada dia da vida dela. Hoje eu lembro de tudo que vivemos e nem acredito, é como se tivesse acordado de um sonho e as lembranças que guardamos me ajudam a perceber que tudo foi maravilhosamente real.



O Marcelo também escreveu algumas palavras que compartilho com vocês aqui:




Não, não foi um sonho...foi tudo real! Eu vi com os meus olhos, eu senti com as minhas mãos.Seu olhar invadiu meu coração e sua ternura transformou o meu ser, com você presenciei diversos milagres!

Dois anos sem sua presença, como eu consegui? Somente com a misericórdia e o consolo de Deus! A saudade é enorme, mas a esperança é muito maior. Confio que o reencontro será melhor que o tempo em que estivemos juntinhos nessa terra. Minha grande amiga, minha serelepe, minha gata! Te amo tanto que me faltam palavras para expressar. Sou tão grato a Deus pela honra de ser teu pai, por ter carregado essa preciosidade em meu colo, por ergue-la em direção ao céu e declarado minha felicidade a Deus por sua existência. Louvado seja o Deus Eterno que nos dá muito mais que merecemos!

Marcelo 


Grande é o Senhor

Esse é um louvor que nos lembra muitíssimo de nossa amada Vitória. Que falou ao nosso coração desde a sua gestação até o momento da sua despedida. Hoje sempre que o ouvimos lembramos dela de forma muito intensa, lembramos de toda a sua vida, de tudo que aprendemos, e agradecemos e glorificamos a Deus por isso.






Toda vez que ouço essa canção, é como seu estivesse mais pertinho dela. Lembro daqueles seus primeiros dias de vida, em que pouco a pouco fomos nos apegando mais e mais àquela bebezinha frágil, imensamente doce, indescritivelmente pura, que nos transmitia um profunda paz. Lembro do seu cheirinho, suas mãos delicadas e finas e sua ternura em meio a todos os desafios que enfrentou durante sua vida. Lembro da lição que ela nos deixou, de que mesmo quando estamos vivendo tempos difíceis, é possível exultar e viver a mais pura paz e alegria na presença do Deus Altíssimo que nos criou e tem a nossa vida em suas mãos de amor.

Obrigada, Senhor, obrigada.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Programa Freud Explica

Queridos amigos,

Amanhã participarei de uma entrevista no Programa Freud Explica da TV Geração Z, uma web tv, ao vivo entre 9h e 10h. Falaremos sobre a Vitória e todo aprendizado que ela nos trouxe em meio a desafios, alegrias e surpresas!

Quem quiser nos acompanhar, é só acessar o site http://www.tvgeracaoz.com.br/, a partir das 9h.






 >> Atualização: Abaixo vídeo do programa!



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Por sua preciosa memória


Mas eu sou como uma oliveira que floresce na casa de Deus; confio no amor de Deus para todo o sempre. Para sempre te louvarei pelo que fizeste; na presença dos teus fiéis proclamarei o teu nome, porque tu és bom. Salmos 52:8-9


Já contei para vocês um pouco sobre como foram os momentos de despedida da nossa princesinha Vitória, quando seu corpinho foi devolvido a terra após sua partida para junto de Jesus.

É um assunto importante para nós e me sinto muito à vontade para falar sobre isso, embora tenha cuidado pois entendo que, para muitas pessoas, falar sobre estas questões que envolvem a morte pode ser um tanto difícil.

Para mim também sempre foi, mas lembro que tomar conhecimento de relatos trazidos por outras famílias de outras experiências de amor e cuidado para com seus filhos durante toda vida, até a morte foi muito importante. Pois quando chegou o nosso momento de despedida, estava um pouco mais preparada e, no lugar do desespero e pânico, busquei conferir a cada momento e a cada detalhe muito amor, dedicação e respeito à memória da nossa filha.

Da mesma forma, algo também muito importante para nós tem sido cuidar do local onde ela foi sepultada.

Sei que alguns pais que perderam seus filhos têm muita dificuldade em visitar o túmulo onde seus pequenos foram sepultados. Acho que isso deve ser respeitado e ninguém deve se sentir culpado em ter essa dificuldade. O mais importante é buscar, ainda em vida, dar o nosso melhor. A história pessoal de cada um e a forma como se deu essa despedida podem ter sido muito traumáticas e isso pode dificultar bastante o processo de luto que se seguirá. Como sempre, o intuito de dividir nossa experiência aqui é somente trazer nosso relato pessoal que, se pode ajudar alguém, sempre é válido.

O corpinho da nossa princesa foi sepultado em um túmulo da família do Marcelo, um túmulo que o avô dele, com muito esforço, comprou para enterrar o próprio pai, na década de 1950, no Cemitério de Campo Grande, em Santo Amaro, São Paulo. Muitos familiares dele foram enterrados neste mesmo local, até que ele mesmo veio a falecer e ali seu corpo descansou, em 2005.

Foi esse mesmo local que acolheu o corpo da nossa amada filhinha. Era um túmulo muito antigo e estava tudo bem desgastado, precisando de uma reforma urgente. Com menos de um mês do falecimento da nossa Vivi, voltamos até lá e lembro que me entristeceu bastante ver como estava tudo velho e desarrumado. Fomos nos organizando financeiramente e em dezembro contratamos uma pessoa para fazer uma pequena reforma, tudo muito simples, em cerâmica, mas para deixar esse importante local de memória de nossa família mais bonito.

Em janeiro, logo na semana que antecedeu seu aniversário de 3 anos, a reforma ficou pronta, e foi um alento ao nosso coração levar algumas flores para lembrar seu aniversário e ver que estava tudo bem mais bonito. Ainda faltava arrumar o jardim, mas só a reforma com a cerâmica já deu uma boa melhorada. Levamos uma linda cesta de flores bem grande, uma borboleta e um cata-vento da decoração dos seus aniversários de 1 e 2 anos. Era um dia cinzento e chuvoso, e com as flores o local ficou mais bonito e iluminado, o que me consolou neste dia que foi bastante triste e emotivo. Mas, para minha indignação e tristeza, voltamos uma semana depois, pois ainda foi feita uma movimentação no túmulo pelos funcionários do cemitério e tudo havia sido levado embora, as flores, as borboletas, o cata-vento. Não tenho nem como descrever o quanto fiquei triste e chateada com esse descaso dos funcionários!

Novamente nos organizamos e contratamos um jardineiro para arrumar o jardim do seu túmulo. Contamos a história da Vitória e o quanto ela foi especial, e o jardineiro se comoveu bastante, fez um jardim bem bonito. Porém o jardim que eles costumam fazer é apenas com plantas suculentas e umas flores que não parecem flores, mais resistentes, menos coloridas. Disseram que outras flores mais delicadas não vingariam, pois há muitas árvores no local e consequentemente pouco sol. Mesmo assim, lá fomos nós num domingo à tarde comprar umas mudinhas de calanchoê e uma pazinha de jardim e seguimos para o cemitério.


Com minhas próprias mãos e com muito carinho cavei a terra, plantei as mudinhas e reguei, na esperança de que elas ficassem bem naquele jardim tão importante para nós. Isso foi em abril, e quando voltamos lá em maio no Dia das Mães para levar mais algumas flores, lembro que alegrou meu coração ver as florzinhas ainda bem vivas e coloridas.




A próxima etapa foi mandar fazer uma placa com seu nome e uma fotinho sua. Finalmente em julho, antes do aniversário do seu falecimento, a placa ficou pronta! Fomos uma semana antes e para minha surpresa, além de a placa estar pronta, as flores estavam novamente cheias de botões. Não consegui ir no dia 17 pois seria nosso primeiro ultrassom para ver o Benjamin, mas lembro que foi um grande consolo, um ano após nos despedirmos, ver essa placa que resume em poucas palavras uma história de vida tão importante e bela como foi a dela. Também deixamos um vaso de flor e mais algumas mudas de calanchoê.


Em agosto, no Dia dos Pais, lembro que acordei de manhã me sentindo triste, com uma imensa falta dela e me sentindo tão desolada em não tê-la junto de mim para juntas irmos dar um abraço no papai. Então fomos novamente ao cemitério, levamos como sempre um vaso de uma flor bem bonita e ao chegarmos vimos o jardim bem florido, as calanchoês e a outra plantinha que havíamos levado super vivas e cheias de flores, tudo tão alegre e bonito.

Então pensei que, se ela não está mais aqui conosco, é porque está agora junto de Deus, num local que deve ser muito mais belo e florido do que esse nosso mundo tão desgastado e maltratado, um lugar mais lindo e alegre do que o mais belo jardim que possa haver nesse mundo. Se ela deixou seu corpinho terreno, que apesar de lindo também era imperfeito e fraco, foi para receber um novo, glorioso e perfeito corpo celestial, graças a Jesus.


Pedi ao jardineiro que plantasse as novas mudinhas que deixei lá, pois havia esquecido de levar a pá para plantá-las, além de que será pago um valor anual para manterem o jardim, e ele também havia dito que podíamos deixar as mudinhas para ele plantar. Devido à gestação, também achei melhor não me agachar para plantá-las. Mas na última vez que voltamos lá, para minha tristeza, vi que as novas mudas não tinham sido plantadas, e quando não tinham mais flores, foram levadas embora. O que novamente me deixou muito chateada!

Mas assim que possível voltaremos lá para plantar mais flores, também sempre as regamos, tiramos um pouco das folhas secas e levamos um vaso de flores para deixar tudo mais bonito.

Na última vez que fomos lá, mês passado, já era primavera e sobre o jardim estavam também muitas flores de paineiras, que nessa época do ano estão todas floridas e caem sobre o chão formando um lindo tapete rosado.




Isso me fez pensar também em como o tempo correu. Já se passaram quatro estações desde a sua partida. E novamente a terra está florescendo e a vida recomeçando.

Sempre que possível, durante minha vida, buscarei manter esse local de honra e memória à história da Vitória. Sei que ela não está ali, que ela está junto de Deus e para quem está junto de Deus, pouco importam estas coisas terrenas. Mas nós, que ficamos, mantemos esses locais de memória para nós mesmos, para acalentar o nosso coração.


Ali depositamos seu corpinho, que foi por nós gerado, que cresceu dentro de mim, que cuidamos e zelamos durante todo o tempo de sua vida. Esse corpinho lindo que ela recebeu de Deus por um tempo para viver conosco, e que foi um tempo muito feliz e importante, que deixou tantas marcas inesquecíveis. Quando chegou o tempo de voltar para Deus, esse corpo descansou e perdeu sua utilidade. E foi com o maior amor, cuidado e respeito que o enterramos, esse corpo onde sua alma tão doce e preciosa habitou. Uma parte de nós está ali e representa um grande tesouro que sempre carregaremos em nossos corações com muito orgulho: sermos seus pais e termos tido uma filha tão preciosa em nossas vidas.










Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor. Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos. Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. 



terça-feira, 16 de julho de 2013

Na presença amorosa de Deus


Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade. 2 Coríntios 3:17



Um ano atrás, neste horário, lembro que pela última vez eu tive minha filha bem em meus braços, e pudemos compartilhar juntas momentos felizes e de muita paz.


Eu a tive em meus braços, acariciei seus cabelos, a abracei forte e senti uma sensação diferente... lembrei de tudo que vivemos desde a sua gestação... ela estava sobre meu corpo e lembrei como cresceu pequenininha em meu ventre e se tornou tão grande e forte. Como achávamos que ela era tão frágil desde o início, mas se mostrou tão valente.


Agradeci por ter lutado tanto para ficar conosco. Disse que me orgulhava muito dela, que me sentia tão feliz em ser sua mãe. Que minha vida tinha se tornado muito melhor, muito mais feliz e mais bonita com sua presença. Que ela era uma menina muito especial. Que ela havia me feito tão bem, mais bem do que eu poderia ter feito a ela. E por alguns minutos nós ficamos juntas, abraçadas, conversando com a alma, com o amor mais profundo que já senti. 

Disse que dava vontade de ficar ali pra sempre, guardando ela no meu coração.

Essa foi a nossa despedida feliz, que Deus permitiu sem que a gente soubesse que estava se despedindo, sem lágrimas de tristeza, sem a angústia da separação, sem a dor física e emocional do momento da morte, sem o medo do futuro desconhecido.


Somente a gratidão, a alegria, o amor de termos vivido dias tão, mas tão felizes, de termos superado tantos desafios juntas, de termos sido uma família tão unida e forte. Uma força que foi descoberta na fraqueza, que foi concedida por Deus com tanto amor e compaixão.



Hoje ela está para sempre guardada no nosso coração, com seus cabelinhos dourados, seus olhos cheios de doçura, seu sorriso que contestou todas as dificuldades que a vida lhe apresentou. Sua pureza que mostrou que era possível ser feliz mesmo quando o mundo diz que você não tem valor. Porque para nós ela tinha valor, e tenho certeza absoluta que para Deus também, ela é uma princesinha preciosa e amada. E nunca, nunca a esquecerei, nunca deixarei de amá-la e esperar cada dia da minha vida para novamente lhe abraçar.


Hoje algumas lembranças doem, a dor da despedida, a dor de ter uma vida inteira pela frente sem minha primeira filha, sem minha menininha linda aqui comigo ao meu lado.

Mas o sentimento também é de liberdade, de alegria, porque ela saiu de casa para a eternidade. O sentimento de que eu a deixei ser livre, seguir seu caminho, viver e concluir sua história.

Afinal, isso também é papel muito importante de uma mãe, criar um filho para se tornar independente. Para nós apenas o tempo correu de um jeito diferente. Dizem que criamos os filhos não para nós, mas para o mundo. Nós criamos a nossa princesinha para o céu.

Amanhã lembramos o aniversário da sua morte nesse mundo, mas prefiro lembrar que é aniversário do seu nascimento no céu. Parabéns, pequena, mamãe e papai sempre, sempre vão te amar!

Deus está cuidando de você para nós, e não há melhor lugar para estar do que na Sua presença de amor.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O luto leva tempo







por Max Lucado*
“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados”. Mateus 5:4
Tiago 4:14 diz, “Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa”.
Nós falamos de uma vida curta - mas comparada com a eternidade, quem tem uma vida longa? Mas no plano de Deus, toda vida é longa o suficiente e toda morte é oportuna. E mesmo que você e eu queiramos uma vida mais longa, Deus sabe o que é melhor.
Eclesiastes 7:3 diz, “A tristeza é melhor do que o riso, porque o rosto triste melhora o coração”.
Os egípcios se vestem de preto por seis meses. Os judeus ortodoxos oferecem orações por um pai falecido todos os dias durante onze meses. Alguns muçulmanos se vestem com trajes de luto por um ano. Eu sou o único que sente que apressamos as nossas dores?
Você sabia que 70% dos salmos são poemas de tristeza? Que o Antigo Testamento inclui um livro de lamentações?
O luto leva tempo. Dê a si mesmo um tempo.




Olá, pessoal! Compartilho com vocês hoje um breve texto do Max Lucado sobre o luto.

É interessante esse processo de luto, existem muitas fases, idas e vindas, momentos de fortalecimento e aceitação, e momentos de volta às lágrimas, e assim vai-se levando a vida. Acredito que outras mães que perderam seus filhos recentemente entendam. Datas como aniversário, dia das mães, etc. nos deixam mais sensibilizadas, e aos pais e outros familiares também.

Talvez o luto dure uma vida toda, pois sempre terá que se viver sem essa pessoa tão amada que partiu.  Cada um vive esse momento da sua forma, de acordo com as circunstâncias vividas, com a sua personalidade e com a sua fé ou posicionamento de vida. 

Muitas vezes as pessoas nem imaginam o quanto ainda dói, não compreendem, mas mesmo assim o luto precisa ser vivido e respeitado. Cada um tem seu tempo necessário para chorar, seus rituais para relembrar,  seus sentimentos para lidar, e não é de se surpreender se passados meses ou anos, ainda seja necessário chorar.

Dói o fato de, a cada nova etapa de nossas vidas que surge, termos que lidar com a realidade de que nossa filha não está mais conosco, não está mais convivendo e participando das mudanças, dos novos projetos, não da maneira como participava antes. Mas com certeza ela está em nosso coração, em nossa motivação e em nossas lembranças  - e por isso mesmo jamais se esquece também da sua ausência.

Às vezes um abraço carinhoso e ouvidos atenciosos são tudo o que se necessita. Às vezes um lenço para secar as lágrimas e outro para enxugar o nariz também ajudam. Às vezes é preciso falar, em outras não se quer falar, e assim leva-se a vida. Sim, é preciso reencontrar-se na vida, e isso às vezes leva tempo. É importante respeitar e amar quem precisa desse tempo. 

Concordo com o autor que nossa sociedade é bastante desconfortável e apressada em "resolver" e "superar" dores tão importantes e necessárias.

Por outro lado, estou também com muitas novidades para contar, novos projetos para dividir, mas hoje por enquanto vamos ficar por aqui e refletir sobre o luto.

Se alguém quiser comentar algo, perguntar  ou compartilhar, sinta-se à vontade.

Um forte abraço e fiquem com Deus!


*Fontes: texto extraído do site http://www.irmaos.com, que por sua vez informa a fonte do texto original em inglês: www.maxlucado.com

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Anjinho-bailarina





"Sabemos que se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no céu, não construída por mãos humanas". 2 Coríntios 5:1





Tão frágil e delicada a nossa menina
e com tanta força e garra ao nascer.
Suas mãozinhas de bailarina
transmitiam a coragem e doçura do seu ser



A mesma coragem com que nasceu,
foi a coragem com que viveu,
foi a coragem com que partiu,
com a missão já cumprida
era preciso seguir o caminho da vida


Cheia de graça,
voar a viagem desconhecida,
temida,
ou pela fé, maravilhosa
para continuar a sua dança
cheia de amor,
esperança,
com mãos delicadas, fortes,
compridas e finas



É preciso coragem e doçura
pra acenar um adeus
pra acariciar seus cabelos
pra tocar seus lábios em silêncio
para nós o silêncio da saudade
para ela a alegria da chegada
a doce canção de liberdade
de quem partiu sendo livre,
feliz e profundamente amada



É preciso criar o sentido, inventar dança
cantar a saudade e respeitar a vida,
é preciso ser sim como criança
e amar sem medida
um filho que vem e vai no seu tempo
amar apesar do medo imenso
da despedida



É preciso amar, tocar, beijar
e apertar suas mãos delicadas e finas,
cheias coragem
pra seguir adiante com um novo sentido,
pra viver sem a minha bailarina
de mãos delicadas e finas



Que transformou
o problema em poema
o medo em amor,
o choro em saudade,
que tanto me ensinou
com sorriso e coragem
na dificuldade
minha anjinho-bailarina
nossa eterna, doce, adorável menina











domingo, 3 de março de 2013

Saudade, ausência, esperança e sonhos

"O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida". Jean Jacques Rousseau



Por estes dias a saudade está batendo forte aqui nos nossos corações... saudade desta pequenina que se tornou nossa companheirinha, que estava sempre com a gente lutando, sorrindo, dando coragem e ânimo com seus lindos olhos cheios de vida. Faz tanto tempo que não a pegamos no colo, não damos um beijinho em seu rosto. Tanto tempo que não penteio mais seus lindos cabelos e faço chiquinhas, nem lhe dou um banho gostoso e durmo abraçadinha com ela em meu peito. Difícil encarar o fato de que vai levar tanto tempo para lhe dar novamente um abraço e um carinho.


***

Essa semana abri uma gaveta com as suas roupinhas, peguei alguns bodies tentando encontrar seu cheirinho... não costumo fazer isso com muita frequência, mas às vezes é preciso. Senti o cheiro das suas roupas, sim, mas o seu cheirinho não está mais ali. Peguei algumas peças mais do fundo e encontrei uma com um fiozinho de cabelo, pequeno e dourado, o seu cabelinho... que eu penteava e fazia chiquinhas e ela ficava linda.

Ah, pequeninha, mamãe te ama tanto, que Deus te abrace e te beije por mim, você nunca será esquecida em nenhum dia das nossas vidas.

***


A vida ficou mais estranha e um tantinho vazia, com um pontinho a menos de brilho nas cores, desde que ela se foi. Parece que a gente vive um filme com aquelas imagens meio esfumaçadas, aquelas cenas estranhas que a gente não entende logo de começo se é um sonho, se é uma lembrança, se é o presente. É uma coisa esquisita, é uma sensação sem nome e sem definição. Isso é a ausência. É diferente da saudade, que tem tantas cores e cheiros, que tem temperatura, textura e até música de fundo... A saudade vem quando olhamos para trás e lembramos momentos bonitos vividos. Até sorrimos. A ausência vem quando percebemos que não dá pra viver no passado, olhamos para o presente e encaramos que aquela pessoa que amamos não está mais aqui com a gente. A ausência me parece um vazio duro e seco, um não sei quê, que dói.

***

O nosso tempo acabou e é tão doloroso encarar isso, lembro quando ela estava na UTI, e passar uma noite inteira longe dela era tão difícil, ter que partir e deixá-la aos cuidados das enfermeiras. Já conhecíamos todas muito bem, e quando elas estavam de folga e vinha uma técnica nova, eu ficava mais insegura, passava a ela todas as recomendações, como ela mamava, como era a temperatura, os cuidados para ela não vomitar, como gostava de dormir, a necessidade de reportar qualquer alteração para a enfermeira chefe. E então a gente vinha para casa, com o coração apertadinho, mas com a promessa de que no dia seguinte voltaríamos.

Sempre eu que partia e lhe dizia que me esperasse. O único momento em que ela é quem partiu foi para a sua cirurgia, com quatro meses. Eu fiquei desde a madrugada com ela em meu colo, bem apertada contra o meu corpo, lhe aquecendo e lhe dando amor. Expliquei-lhe sobre a cirurgia, e lhe disse várias vezes: eu vou estar aqui te esperando, por favor volte, estarei aqui! E ela voltou! Entre alegria, alívio e medo, vivemos tantas situações difíceis, tantos sufocos, saltamos montanhas e cruzamos mares juntas.



***

Como é importante uma despedida.

Na véspera da sua partida, a última noite em que ela dormiu aqui em casa, após ela mamar seu leitinho com frutas antes de dormir, eu deitei no sofá e lhe dei um colinho. Às vezes eu gostava de parar tudo por um tempo e lhe dar colo, como quando ela era bebezinha. Quando pequenina eu lhe dava colo na maior parte do dia, mas ela foi crescendo, ficando maior, foram surgindo mais atividades, tarefas e a vida foi tomando uma rotina normal. Mas de vez em quando eu lembrava, ela ainda é minha bebê e preciso ter esse tempo com ela.

Na sua última noite aqui em casa, eu a peguei no colo e fiquei acariciando seus cabelos. Falei mais uma vez que lhe amava, disse palavras de carinho. Já era tarde. O Marcelo apareceu, me chamando para ir dormir, lembrou que já era tarde. Eu disse a ele que estava tão bom estar ali com ela, lhe dando um colinho, era tão maravilhoso. Eu disse a ele: dá vontade de ficar aqui para sempre! Sempre era bom estar com ela, mas naquele momento parecia mais especial, uma sensação de coração cheio de paz e plenitude, de sentir que  conseguíamos nos entender tão bem e expressar o quanto nos amávamos. Então levantei, coloquei-a em seu berço, fiquei lhe observando. Ela pareceu meio incomodada na hora que lhe deitei, parecia que também queria continuar no meu colo. Mas logo se acalmou e dormiu. Foi uma das madrugadas mais frias do ano.

E no dia seguinte tudo aconteceu. Foram momentos bem difíceis, ela acordou já em febre alta, com dificuldades para respirar, parecia muito sério. Pela primeira vez desde que ela viera para casa, ligamos para a emergência chamando uma ambulância. Não souberam dizer em quanto tempo chegariam, então preferimos envolvê-la em uma toalha de banho e ir de carro correndo para o hospital. Ainda estava escuro e fazia muito frio, mas ela ardia em febre. Eu só lhe dizia que tudo iria ficar bem, que logo ela se sentiria melhor. E ela nunca mais voltou para casa.

Nós ainda pudemos nos despedir, no hospital, quando ela estava já sedada, lhe beijamos e dissemos o quanto lhe amávamos. Cantamos e oramos segurando sua mãozinha antes de ela partir. Mas de alguma forma a nossa despedida mais especial foi aquela, ali no sofá da sala. Talvez nossos corações já soubessem de alguma forma que aquela era nossa última noite juntas, nosso último colinho e momento de mãe e filha juntas e felizes. De alguma maneira queríamos congelar aquele momento para sempre. Mas é preciso seguir em frente, não dá pra parar a vida nos melhores momentos. Os dias difíceis vêm, os dias de despedida também chegam. Como os pessimistas afirmam triunfantes, nem tudo na vida são flores.

Foi muito bom nos despedirmos. Sabe quando alguém parte para uma longa viagem, e você dá todas as recomendações e fala tudo que é importante, pois sabe que ficará muito tempo sem ver a outra pessoa?
Foi assim. Não sabíamos, mas já sabíamos, de alguma maneira.

As preocupações passaram, a correria do dia a dia, os olhares curiosos e inconvenientes que tantas pessoas já lançaram, os comentários azedos e amargos, e até mesmo os doces, tudo isso passou. Os momentos de "blog popular" também passaram, os elogios, tudo isso passa. Muitas coisas mudam.

Ficou somente o amor que foi vivido. Esse amor profundo que jamais se tornará fora de tempo. A lembrança de seu último dia de vida em que eu preferi deixar a casa bagunçada e a louça por lavar para aquecê-la em meus braços, e nosso momento "de querer ficar aqui pra sempre". 

Tenho tantas coisas a aprender, a fazer, a mudar e a crescer. Claro que este blog  não é um confessionário e as pessoas criam uma imagem idealizada, gostam de levantar heróis (e também vilões), recebemos muitos elogios e na verdade somos somente pessoas comuns e anônimas, que têm que batalhar e trabalhar e enfrentar dias difíceis e encarar os próprios erros e limitações. 

Mas agradeço muito a Deus pelos momentos de lucidez e clareza em que escolhemos ficar com nossa filha e amá-la. Por entender que todas as angústias e preocupações passariam, mas aquele zelo, amor e carinho valeriam pra sempre. Ninguém jamais vai tirar de mim o amor e as boas lembranças do tempo que vivemos com nossa princesinha. Podem passar décadas. Vai estar aqui comigo para sempre.

Nem tudo na vida são flores, é verdade. Por isso é tão valioso quando você tem uma flor em sua vida. É tão importante amar e cuidar com todo o coração da sua flor. 

***

Às vezes o que me consola é pensar que nossa princesa já estava cansadinha e vinha enfrentando algumas dificuldades. Que era preciso se mudar para o céu para o seu bem. Às vezes questiono a Deus por que ela teve que sofrer em alguns momentos, (isso é o que mais dói em meu coração) e em outras percebo que, se não fosse para poupá-la de sofrer, teria sido muito difícil ter aceitado a sua partida. Então agradeço porque tive o privilégio imensurável de viver tantas coisas maravilhosas com ela, durante muitos e muitos dias. Tento me apegar ao que pudemos viver e em como foi muito, muito bom. Foram muito mais dias felizes do que tristes. Muito mais.

*** 

Muitas vezes eu nem penso muito, apenas sigo em frente, trabalho bastante, vejo suas fotinhos, também beijo sua imagem dormindo em meu celular (menos frio que o porta-retrato) e me absorvo em outras atividades. Corro sem olhar para os lados.

Mas uma hora as lágrimas vêm. Demoram, mas vêm. Um dia fui falar com Deus e chorei, e quando vi estava chorando e perguntando: por que ela teve que sofrer, por quê? Aceito tudo que vivemos, aceito que ela tinha que nascer assim e partir, só não entendo por que ela sofreu. Fiquei surpresa ao ouvir aquelas palavras. Eu não tenho nenhum sentimento de revolta, sinto paz e falo sobre tudo que vivemos com muita naturalidade (às vezes até demais, para "escândalo" de alguns que se dizem "chocados"). Mas esse sentimento de dor estava lá e encontrou um caminho para sair do coração e chegar aos lábios, sem avisar, apenas saiu. E chorei.


***

No dia seguinte, estávamos no carro indo para algum lugar (que não me lembro), e estávamos ouvindo alguns louvores e cantando. Estávamos cantando "Vim para adorar-te", nos últimos versos: "Não saberei quanto custou ver meus pecados lá na cruz, não saberei quanto custou ver meus pecados lá na cruz..." Estava feliz cantando e de repente parei, e comecei a chorar...  ouvi saindo dos meus próprios lábios que haviam feito a pergunta um pouco antes, a resposta. Ela sofreu sim, e por meio dessa dor absurda e imensurável, pude entender, um pouco, o que Jesus sofreu. De fato não saberei nunca o que Deus sentiu vendo seu filho ali sofrer, sendo torturado e executado estupidamente, sofrendo sozinho, sem poder receber um abraço, um carinho, um consolo ou um alívio. Sozinho. Apenas consigo imaginar, um pouco, agora.

Em meio a muitas lágrimas agradeci a Deus por não me sentir só e por Jesus ter vindo a este mundo se revelar e se humilhar entre os homens para que pudéssemos então dar um primeiro passo para longe da nossa arrogância, em direção à volta para casa.


***

Às vezes eu sonho com a minha querida filha. Geralmente são sonhos muito confortantes, e acordo com um calorzinho no coração. Duas semanas após ela partir, eu sonhei que estava me aproximando de meu quarto e vi o Marcelo ajeitando ela sobre a cama. Pensei: como que ela veio parar aqui, se ela morreu? Então eu a vi começando a se mexer e se espreguiçar todinha. E gritei muito alto (no sonho): Filha, você voltoooou!!!!!!! enquanto pegava sua mãozinha que estava acabando de se esticar. Quando a toquei, senti sua mão quente, e senti esse calor imediatamente em meu peito, muito real. Então acordei, rapidamente, como se voltasse de um mergulho profundo. Acordei sentindo aquele calor gostoso em meu peito e uma lagriminha no canto do olho.

Senti como se fosse a mão de Deus aquecendo meu peito. E a Sua presença muito forte neste sonho, um novo ânimo e consolo, me dizendo: Não deixe de crer, não deixe de enxergar além do que seus olhos podem ver. Ela vive.




*** 

Desde então todas as vezes que sonhei com ela, ela estava sempre viva e curada de todas as suas deficiências, ou eu a via ressuscitando, voltando à  vida. Uma vez ela bateu palminhas para mim, outras vezes estava engatinhando e fazendo arte, subindo nas coisas... em outras eu a abraçava muito e beijava. Uma vez, porém, sonhei que ela estava com frio e depois esquentou demais e eu estava aflita tentando ajudá-la! (pesadelo). Afinal, sonhos são sonhos. Não vou dizer aqui que querem dizer qualquer coisa além de que estes são os sentimentos que sempre tive por ela e como eu sempre a vi: perfeita e cheia de vida. E como eu ainda a vejo, e creio. Também acho que é uma forma que nossa mente encontra de matar essa saudade imensa e infinita. E é, sem dúvida, um presente de Deus revivê-la em meus sonhos.


***

Aqui neste cantinho, no Blog da nossa princesinha, é muito bom poder relembrar, reviver, e sentir todo esse amor tão bonito que pudemos viver com ela, que foi um momento precioso de nossas vidas.

Outro dia encontrei esta frase e achei que fazia muito sentido com a vida de nossa filha. Não sei realmente em qual contexto ela foi dita e por qual motivo, mas por si só possui um sentido especial. 

"O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida". Jean Jacques Rousseau

Nossa princesa teve uma vida breve para este mundo, mas sua vida foi preciosa e intensa, e marcou a todos nós.



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