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Mas eu sou como uma oliveira que floresce na casa de Deus; confio no amor de
Deus para todo o sempre. Salmo 52:8

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domingo, 21 de junho de 2015

Um pequenino milagre em meus braços

Hoje depois de muito tempo assisti novamente ao documentário que foi produzido pela Estação Luz Filmes sobre a história de nossa filha Vitória. Só aí me dei conta de que há exatos 5 anos, em 21/06/2010, ela recebia alta hospitalar para ir para casa!

Lembro que foi uma sensação única de alegria e gratidão pegar aquele pequenino milagre em meus braços e levá-lo para casa. 

Não sei por que fui escolhida para essa missão. Mas recebi a responsabilidade e o privilégio de amar e zelar pela vida de uma criança única, especial e muito frágil. Lutei ao seu lado durante quase 3 anos com todas as minhas forças e além. Pude experimentar a presença de Jesus ao meu lado todos os dias. Não teria conseguido sem Sua presença a me lembrar o amor incondicional de Deus por mim e por minha filha, e Seu Espírito a nos sustentar e conduzir.

Foram anos preciosos em que senti de forma muito intensa o quanto a vida é algo sagrado, valioso e passageiro. Sua presença nos enchia de amor, de paz, de coragem e fé. A mim me parece que às vezes Deus escolhe os mais pequeninos e frágeis para se manifestar entre os homens e para serem mensageiros de seu amor. Talvez porque nós vivemos aqui tão cheios de nós mesmos que nos custa silenciar para ouvir a Deus.

Quanto sentido de vida ganhei com sua vida tão breve. 

Em julho fará 3 anos que ela recebeu sua "alta" dessa vida limitada e foi para sua verdadeira casa. Vem chegando aquela tristezinha misturada com a saudade de ver quanto tempo que já não a temos mais aqui. Mas é bom pensar que, assim como nós a levamos para nossa casa nessa vida passageira e imperfeita, naquela manhã fria de 21 de junho, com tanto orgulho, com tanto amor, felizes por ela não precisar mais ficar no hospital... Jesus também deve tê-la recebido com todo amor e muito, muito orgulho, quando ela nos deixou naquela noite gelada de julho de 2012, liberta de todas as dores e desafios desta vida... "Missão cumprida, minha princesinha guerreira, seja bem-vinda! Como te amamos e estamos felizes que você esteja aqui" 

Se eu, tão imperfeita e limitada que sou, a amo tanto, imagina Deus! Pensar no profundo amor que Deus tem por ela acalma e aquece meu coração de mãe - que convive com a ausência de uma filha que ainda é e sempre será muito amada. 

Compartilho o documentário novamente, para quem ainda não assistiu ou para quem quiser relembrar conosco.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dois anos de saudade


Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade


Queridos amigos...

Cá estou eu novamente a escrever aqui no blog da nossa princesinha depois de tanto tempo! Dessa vez vou tentar ser breve - já comecei tantas e tantas postagens que nunca termino, pois o tempo aqui tem sido sempre contadinho! e assim o blog tem ficado tanto tempo sem notícias. 

Este mês, no dia 17, completaram-se dois anos de saudade de nossa amada filha. Há dois anos que ela simplesmente bateu suas asas e voou para o céu. Assim, de repente, de um dia para o outro, após uma despedida rápida porém intensa.

Comecei a escrever um relato - mais um - com mais detalhes sobre o dia da sua partida. Ainda não pude concluir - como as conclusões são às vezes difíceis! - mas relembrando pude chorar, me emocionar, sentir novamente a dor da despedida e da falta que essa filha amada e preciosa nos deixou. O tempo às vezes é injusto: a gente vai esquecendo um pouco a dor da perda, como uma cicatriz que vai se apagando, se amenizando, mas isso tem um preço: a gente também acaba perdendo certos detalhes da memória. Às vezes, vivendo certas coisas com Benjamin, fico tentando lembrar como era a rotina com minha princesinha, como era para fazê-la dormir, como era o banho, e para minha surpresa vejo que algumas coisas vão ficando meio apagadas com essa distância que o tempo traz. E é tão bom lembrar como era pentear seus cabelos perfumados depois do banho, abraçá-la bem forte e enchê-la de beijos antes de dormir. Ver seu rostinho de satisfação quando eu lhe alimentava, como tomava com gosto as vitaminas de frutas na mamadeira, até dava uns gemidinhos de alegria, como gostava! Mas aí vem a dor da saudade e a gente fica nesse vai e vem de sentimentos.

Pude enxergar a misericórdia imensa de Deus mais uma vez com a presença de Benjamin em nossas vidas, que tem nos trazido muita alegria e consolo. Ano passado, no dia 17 de julho, estávamos fazendo o 2º ultrassom para acompanhar seu desenvolvimento, com apenas 8 semanas de gestação. Esse ano, 17 de julho foi um dia ensolarado e agradável, pude passear com Benjamin e levá-lo pela primeira vez no parquinho do nosso condomínio!



Nosso amada menino tem crescido sendo muito abençoado por nosso Deus! É um menino forte, muito sadio, muito esperto e atento a tudo, risonho e sensível, um grande presente de nosso Pai para seguirmos em frente com nossas vidas com a motivação de amá-lo, protegê-lo, educá-lo em amor.

Foto: 5 meses!
Prometo vir aqui em breve dividir mais como tem sido estes primeiros meses com ele, são muitas alegrias, e gostaria de dividir mais dele com vocês aqui no blog... mas ao mesmo tempo em que me falta tempo, também prefiro que o blog fique mais com as lembranças de nossa gatinha - afinal a vida segue em frente e tudo passa tão rápido mas aqui será sempre um cantinho para recordar, com o meu tesouro de memórias.




Nestes 2 anos temos aprendido a viver sem uma parte tão importante de nossas vidas, sem a presença de nossa primeira filha em nossa família. Temos recebido muito consolo e bênçãos de Deus nesse tempo, mas a saudade é enorme. 

Após o nascimento do Benjamin, tantas vezes o coração aperta pensando como teria sido maravilhoso se ela tivesse se formado perfeitamente, tantas coisas lindas teríamos vivido a mais com ela, coisas lindas como as que estamos vivenciando com ele.

Mas é certo que ela nos transformou. Nos ajudou a ver a vida com outros olhos, com um pouco mais de amor, menos julgamento, mais compaixão, mais pureza... como ela era preciosa!!!

Lembro quando descobrimos o diagnóstico, quando soubemos que nosso bebê iria morrer, a cada dia que acordava aquilo tudo parecia um terrível pesadelo. Aos poucos Deus foi nos confortando, nos envolvendo com seu amor, seu cuidado, nos ajudando a perceber que tesouro mais precioso que Ele estava nos presenteando. Vivemos coisas tão lindas, era como se um pedacinho do céu estivesse conosco a cada dia da vida dela. Hoje eu lembro de tudo que vivemos e nem acredito, é como se tivesse acordado de um sonho e as lembranças que guardamos me ajudam a perceber que tudo foi maravilhosamente real.



O Marcelo também escreveu algumas palavras que compartilho com vocês aqui:




Não, não foi um sonho...foi tudo real! Eu vi com os meus olhos, eu senti com as minhas mãos.Seu olhar invadiu meu coração e sua ternura transformou o meu ser, com você presenciei diversos milagres!

Dois anos sem sua presença, como eu consegui? Somente com a misericórdia e o consolo de Deus! A saudade é enorme, mas a esperança é muito maior. Confio que o reencontro será melhor que o tempo em que estivemos juntinhos nessa terra. Minha grande amiga, minha serelepe, minha gata! Te amo tanto que me faltam palavras para expressar. Sou tão grato a Deus pela honra de ser teu pai, por ter carregado essa preciosidade em meu colo, por ergue-la em direção ao céu e declarado minha felicidade a Deus por sua existência. Louvado seja o Deus Eterno que nos dá muito mais que merecemos!

Marcelo 


Grande é o Senhor

Esse é um louvor que nos lembra muitíssimo de nossa amada Vitória. Que falou ao nosso coração desde a sua gestação até o momento da sua despedida. Hoje sempre que o ouvimos lembramos dela de forma muito intensa, lembramos de toda a sua vida, de tudo que aprendemos, e agradecemos e glorificamos a Deus por isso.






Toda vez que ouço essa canção, é como seu estivesse mais pertinho dela. Lembro daqueles seus primeiros dias de vida, em que pouco a pouco fomos nos apegando mais e mais àquela bebezinha frágil, imensamente doce, indescritivelmente pura, que nos transmitia um profunda paz. Lembro do seu cheirinho, suas mãos delicadas e finas e sua ternura em meio a todos os desafios que enfrentou durante sua vida. Lembro da lição que ela nos deixou, de que mesmo quando estamos vivendo tempos difíceis, é possível exultar e viver a mais pura paz e alegria na presença do Deus Altíssimo que nos criou e tem a nossa vida em suas mãos de amor.

Obrigada, Senhor, obrigada.

domingo, 11 de maio de 2014

O presente de ter sido sua mãe

Foto tirada no final da gravidez da Vitória, em dezembro de 2009 - alegria e gratidão por esta menininha que me tornou mãe!

Hoje foi um dia muito feliz, comemorando o primeiro Dia das Mães com nosso amado filho Benjamin... Que chegou em nossas vidas há tão pouco tempo já trazendo tanta alegria e vida. Que encheu nossa casa de sorrisos, como manhãs ensolaradas amanhecidas com sono, abraços e muitos carinhos.

Um dia de agradecer a Deus por este presente precioso: um filho saudável, tão lindo, doce, risonho. Um filho sonhado, esperado, desejado e profundamente amado.

Também um dia de saudade, de gratidão e aquela pontinha de melancolia, lembrando da nossa princesinha Vitória. Pelo segundo Dia das Mães ela não está mais aqui comigo... Pelo segundo ano não posso envolvê-la em meus braços, beijar seus cabelos e lhe dizer que a amo e que sempre a amarei. 

Que deixou um amor imenso no meu coração e um vazio na casa, de um espaço que sempre será dela e só dela... Com a sua doçura, pureza e delicadeza de menina especial que foi em nossas vidas.

Esta menina que me tornou mãe. Com quem descobri a maternidade. Esse amor tão profundo, forte e corajoso que a gente sente crescer dentro de si sem saber de onde, como uma enxurrada que passa arrastando tudo que vê pela frente, que nos leva a fazer o que for preciso para ver um filho bem, feliz, seguro junto de nós.

Como agradeço a essa menininha que passou em minha vida e mudou tudo. Que me transformou profundamente me tornando mãe. Que me deixou muita maturidade e abençoou intensamente a nossa família. Não sei como posso viver sem ela. Mas não sei como poderia viver sem ter sido mãe dela.

Ela não está aqui para me abraçar e presentear como os filhos fazem com suas mães... Mas ter sido sua mãe foi certamente um presente para toda a vida.

Te amo pequenina, guardo no coração um amor eterno por ti, que guardarei por toda a vida até te encontrar novamente... até te abraçar novamente como te abraço ainda em minhas lembranças. Obrigada, meu amor, obrigada. Mamãe te ama.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Por sua preciosa memória


Mas eu sou como uma oliveira que floresce na casa de Deus; confio no amor de Deus para todo o sempre. Para sempre te louvarei pelo que fizeste; na presença dos teus fiéis proclamarei o teu nome, porque tu és bom. Salmos 52:8-9


Já contei para vocês um pouco sobre como foram os momentos de despedida da nossa princesinha Vitória, quando seu corpinho foi devolvido a terra após sua partida para junto de Jesus.

É um assunto importante para nós e me sinto muito à vontade para falar sobre isso, embora tenha cuidado pois entendo que, para muitas pessoas, falar sobre estas questões que envolvem a morte pode ser um tanto difícil.

Para mim também sempre foi, mas lembro que tomar conhecimento de relatos trazidos por outras famílias de outras experiências de amor e cuidado para com seus filhos durante toda vida, até a morte foi muito importante. Pois quando chegou o nosso momento de despedida, estava um pouco mais preparada e, no lugar do desespero e pânico, busquei conferir a cada momento e a cada detalhe muito amor, dedicação e respeito à memória da nossa filha.

Da mesma forma, algo também muito importante para nós tem sido cuidar do local onde ela foi sepultada.

Sei que alguns pais que perderam seus filhos têm muita dificuldade em visitar o túmulo onde seus pequenos foram sepultados. Acho que isso deve ser respeitado e ninguém deve se sentir culpado em ter essa dificuldade. O mais importante é buscar, ainda em vida, dar o nosso melhor. A história pessoal de cada um e a forma como se deu essa despedida podem ter sido muito traumáticas e isso pode dificultar bastante o processo de luto que se seguirá. Como sempre, o intuito de dividir nossa experiência aqui é somente trazer nosso relato pessoal que, se pode ajudar alguém, sempre é válido.

O corpinho da nossa princesa foi sepultado em um túmulo da família do Marcelo, um túmulo que o avô dele, com muito esforço, comprou para enterrar o próprio pai, na década de 1950, no Cemitério de Campo Grande, em Santo Amaro, São Paulo. Muitos familiares dele foram enterrados neste mesmo local, até que ele mesmo veio a falecer e ali seu corpo descansou, em 2005.

Foi esse mesmo local que acolheu o corpo da nossa amada filhinha. Era um túmulo muito antigo e estava tudo bem desgastado, precisando de uma reforma urgente. Com menos de um mês do falecimento da nossa Vivi, voltamos até lá e lembro que me entristeceu bastante ver como estava tudo velho e desarrumado. Fomos nos organizando financeiramente e em dezembro contratamos uma pessoa para fazer uma pequena reforma, tudo muito simples, em cerâmica, mas para deixar esse importante local de memória de nossa família mais bonito.

Em janeiro, logo na semana que antecedeu seu aniversário de 3 anos, a reforma ficou pronta, e foi um alento ao nosso coração levar algumas flores para lembrar seu aniversário e ver que estava tudo bem mais bonito. Ainda faltava arrumar o jardim, mas só a reforma com a cerâmica já deu uma boa melhorada. Levamos uma linda cesta de flores bem grande, uma borboleta e um cata-vento da decoração dos seus aniversários de 1 e 2 anos. Era um dia cinzento e chuvoso, e com as flores o local ficou mais bonito e iluminado, o que me consolou neste dia que foi bastante triste e emotivo. Mas, para minha indignação e tristeza, voltamos uma semana depois, pois ainda foi feita uma movimentação no túmulo pelos funcionários do cemitério e tudo havia sido levado embora, as flores, as borboletas, o cata-vento. Não tenho nem como descrever o quanto fiquei triste e chateada com esse descaso dos funcionários!

Novamente nos organizamos e contratamos um jardineiro para arrumar o jardim do seu túmulo. Contamos a história da Vitória e o quanto ela foi especial, e o jardineiro se comoveu bastante, fez um jardim bem bonito. Porém o jardim que eles costumam fazer é apenas com plantas suculentas e umas flores que não parecem flores, mais resistentes, menos coloridas. Disseram que outras flores mais delicadas não vingariam, pois há muitas árvores no local e consequentemente pouco sol. Mesmo assim, lá fomos nós num domingo à tarde comprar umas mudinhas de calanchoê e uma pazinha de jardim e seguimos para o cemitério.


Com minhas próprias mãos e com muito carinho cavei a terra, plantei as mudinhas e reguei, na esperança de que elas ficassem bem naquele jardim tão importante para nós. Isso foi em abril, e quando voltamos lá em maio no Dia das Mães para levar mais algumas flores, lembro que alegrou meu coração ver as florzinhas ainda bem vivas e coloridas.




A próxima etapa foi mandar fazer uma placa com seu nome e uma fotinho sua. Finalmente em julho, antes do aniversário do seu falecimento, a placa ficou pronta! Fomos uma semana antes e para minha surpresa, além de a placa estar pronta, as flores estavam novamente cheias de botões. Não consegui ir no dia 17 pois seria nosso primeiro ultrassom para ver o Benjamin, mas lembro que foi um grande consolo, um ano após nos despedirmos, ver essa placa que resume em poucas palavras uma história de vida tão importante e bela como foi a dela. Também deixamos um vaso de flor e mais algumas mudas de calanchoê.


Em agosto, no Dia dos Pais, lembro que acordei de manhã me sentindo triste, com uma imensa falta dela e me sentindo tão desolada em não tê-la junto de mim para juntas irmos dar um abraço no papai. Então fomos novamente ao cemitério, levamos como sempre um vaso de uma flor bem bonita e ao chegarmos vimos o jardim bem florido, as calanchoês e a outra plantinha que havíamos levado super vivas e cheias de flores, tudo tão alegre e bonito.

Então pensei que, se ela não está mais aqui conosco, é porque está agora junto de Deus, num local que deve ser muito mais belo e florido do que esse nosso mundo tão desgastado e maltratado, um lugar mais lindo e alegre do que o mais belo jardim que possa haver nesse mundo. Se ela deixou seu corpinho terreno, que apesar de lindo também era imperfeito e fraco, foi para receber um novo, glorioso e perfeito corpo celestial, graças a Jesus.


Pedi ao jardineiro que plantasse as novas mudinhas que deixei lá, pois havia esquecido de levar a pá para plantá-las, além de que será pago um valor anual para manterem o jardim, e ele também havia dito que podíamos deixar as mudinhas para ele plantar. Devido à gestação, também achei melhor não me agachar para plantá-las. Mas na última vez que voltamos lá, para minha tristeza, vi que as novas mudas não tinham sido plantadas, e quando não tinham mais flores, foram levadas embora. O que novamente me deixou muito chateada!

Mas assim que possível voltaremos lá para plantar mais flores, também sempre as regamos, tiramos um pouco das folhas secas e levamos um vaso de flores para deixar tudo mais bonito.

Na última vez que fomos lá, mês passado, já era primavera e sobre o jardim estavam também muitas flores de paineiras, que nessa época do ano estão todas floridas e caem sobre o chão formando um lindo tapete rosado.




Isso me fez pensar também em como o tempo correu. Já se passaram quatro estações desde a sua partida. E novamente a terra está florescendo e a vida recomeçando.

Sempre que possível, durante minha vida, buscarei manter esse local de honra e memória à história da Vitória. Sei que ela não está ali, que ela está junto de Deus e para quem está junto de Deus, pouco importam estas coisas terrenas. Mas nós, que ficamos, mantemos esses locais de memória para nós mesmos, para acalentar o nosso coração.


Ali depositamos seu corpinho, que foi por nós gerado, que cresceu dentro de mim, que cuidamos e zelamos durante todo o tempo de sua vida. Esse corpinho lindo que ela recebeu de Deus por um tempo para viver conosco, e que foi um tempo muito feliz e importante, que deixou tantas marcas inesquecíveis. Quando chegou o tempo de voltar para Deus, esse corpo descansou e perdeu sua utilidade. E foi com o maior amor, cuidado e respeito que o enterramos, esse corpo onde sua alma tão doce e preciosa habitou. Uma parte de nós está ali e representa um grande tesouro que sempre carregaremos em nossos corações com muito orgulho: sermos seus pais e termos tido uma filha tão preciosa em nossas vidas.










Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor. Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos. Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. 



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Eu sempre vou te amar...


"Eu sempre vou te amar". É isso que meu coração diz toda vez que penso na minha amada Vitória de Cristo. 

Logo que ela partiu, sonhava bastante com ela - e nos meus sonhos ela sempre estava viva, acordando de repente, como se não tivesse morrido, mas apenas adormecido. Como nos relatos do evangelho em que Jesus ressuscitava as pessoas e dizia que estavam apenas dormindo. Ou como nessas notícias que ouvimos vez ou outra de que uma pessoa foi declarada morta mas de repente, no meio do velório, "ressuscitou" e fora apenas um sono profundo para o qual a medicina não tem muita explicação.

O fato é que, no sonho, ela começava a acordar, se mexer, eu ia correndo pegá-la no colo, abraça-la e a minha maior preocupação era então alimentá-la e hidratá-la - afinal ela estava há muito tempo desacordada sem comer! De alguma maneira não ficava surpresa pois, conforme nossa fé, conforme as promessas de Jesus na Bíblia, ela de fato não morreu, mas está viva em Cristo e um dia vamos nos reencontrar no céu, nisso eu creio de todo o meu coração.

Passou o tempo e nunca mais sonhei com ela. Poucos dias após descobrirmos que estávamos esperando nosso segundo bebê, um dia sonhei novamente. No sonho, eu me aproximei dela e lhe disse: "Filha, a mamãe vai ter outro bebê, mas eu quero que você saiba que a mamãe sempre, sempre vai te amar". E então lhe dei um abraço beeeem apertado, sentindo seu pequeno corpinho junto ao meu. Aí acordei. Com aquele calorzinho no meu coração, com a paz e leveza daquele abraço, de um amor sem fim, que seguirá comigo por toda a vida, mesmo que a minha gatinha linda já tenha partido. 

Tantos sentimentos profundos e complexos guardados no peito na forma de um abraço eterno e expressos  em uma pequena frase: "Eu sempre vou te amar".

Há algumas semanas, sonhei novamente com ela, e de novo ela estava acordando e voltando a viver. Eu saí correndo para lhe preparar uma vitamina de frutas, mas não achava as frutas e todas as coisas necessárias para preparar o alimento, e minha maior preocupação era em hidratá-la para que ela não voltasse a morrer. Aí comecei a pensar se precisava fazer um exame de urina para ver se ela não estava com infecção, e ficava cada vez mais apreensiva correndo pra lá e pra cá pela casa. Mas então eu a peguei no colo e foi como se Deus falasse ao meu coração: "Não é mais necessário". Então entendi que ela de fato havia partido e não era mais necessário cuidar dela, alimentá-la e fazer os controles da infecção de urina. Nesse breve momento de sonho, entendi que ela havia partido porque não era mais necessário estar aqui. Só isso. Tão simples. E me senti em paz novamente. Então ela voltou a dormir, com aquele seu rostinho sereno, com seus lindos olhinhos redondos com cílios longos serenamente fechados.

E eu lhe disse, profunda e pausadamente: "Eu sempre vou te amar". E a abracei beeeeem forte. E então acordei.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Na presença amorosa de Deus


Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade. 2 Coríntios 3:17



Um ano atrás, neste horário, lembro que pela última vez eu tive minha filha bem em meus braços, e pudemos compartilhar juntas momentos felizes e de muita paz.


Eu a tive em meus braços, acariciei seus cabelos, a abracei forte e senti uma sensação diferente... lembrei de tudo que vivemos desde a sua gestação... ela estava sobre meu corpo e lembrei como cresceu pequenininha em meu ventre e se tornou tão grande e forte. Como achávamos que ela era tão frágil desde o início, mas se mostrou tão valente.


Agradeci por ter lutado tanto para ficar conosco. Disse que me orgulhava muito dela, que me sentia tão feliz em ser sua mãe. Que minha vida tinha se tornado muito melhor, muito mais feliz e mais bonita com sua presença. Que ela era uma menina muito especial. Que ela havia me feito tão bem, mais bem do que eu poderia ter feito a ela. E por alguns minutos nós ficamos juntas, abraçadas, conversando com a alma, com o amor mais profundo que já senti. 

Disse que dava vontade de ficar ali pra sempre, guardando ela no meu coração.

Essa foi a nossa despedida feliz, que Deus permitiu sem que a gente soubesse que estava se despedindo, sem lágrimas de tristeza, sem a angústia da separação, sem a dor física e emocional do momento da morte, sem o medo do futuro desconhecido.


Somente a gratidão, a alegria, o amor de termos vivido dias tão, mas tão felizes, de termos superado tantos desafios juntas, de termos sido uma família tão unida e forte. Uma força que foi descoberta na fraqueza, que foi concedida por Deus com tanto amor e compaixão.



Hoje ela está para sempre guardada no nosso coração, com seus cabelinhos dourados, seus olhos cheios de doçura, seu sorriso que contestou todas as dificuldades que a vida lhe apresentou. Sua pureza que mostrou que era possível ser feliz mesmo quando o mundo diz que você não tem valor. Porque para nós ela tinha valor, e tenho certeza absoluta que para Deus também, ela é uma princesinha preciosa e amada. E nunca, nunca a esquecerei, nunca deixarei de amá-la e esperar cada dia da minha vida para novamente lhe abraçar.


Hoje algumas lembranças doem, a dor da despedida, a dor de ter uma vida inteira pela frente sem minha primeira filha, sem minha menininha linda aqui comigo ao meu lado.

Mas o sentimento também é de liberdade, de alegria, porque ela saiu de casa para a eternidade. O sentimento de que eu a deixei ser livre, seguir seu caminho, viver e concluir sua história.

Afinal, isso também é papel muito importante de uma mãe, criar um filho para se tornar independente. Para nós apenas o tempo correu de um jeito diferente. Dizem que criamos os filhos não para nós, mas para o mundo. Nós criamos a nossa princesinha para o céu.

Amanhã lembramos o aniversário da sua morte nesse mundo, mas prefiro lembrar que é aniversário do seu nascimento no céu. Parabéns, pequena, mamãe e papai sempre, sempre vão te amar!

Deus está cuidando de você para nós, e não há melhor lugar para estar do que na Sua presença de amor.

sábado, 18 de maio de 2013

Entrevista no Programa Sabor de Vida



Ontem tive o privilégio de participar de uma entrevista no Programa Sabor de Vida, da TV Aparecida. Foi uma conversa muito especial em que relembramos alguns momentos da história da nossa princesinha Vitória.

Minha querida amiga Valeria Souit me acompanhou até lá, a cidade não fica muito próxima de São Paulo, e fomos muito bem recebidas por todos na emissora. Agradeço ainda às produtoras Andrezza e à Celiane por todo carinho e apoio.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Seja forte e corajoso!

Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor. Salmos 27:1



Eu me empenharei para que, também depois da minha partida, vocês sejam sempre capazes de lembrar-se destas coisas. 2 Pedro 1:15 
(apóstolo Pedro, no final da sua vida, lembrando aos cristãos de seu tempo a importância de não esquecerem das promessas de Deus e de manterem viva a fé e virtudes como domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor).



Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. Romanos 8:18



Há algumas semanas finalmente encomendei a impressão de algumas fotografias da Vitória, um pacote promocional de 600 cópias que achei na internet. Depois do árduo trabalho de selecionar apenas 600 entre milhares de arquivos, dias depois a encomenda chegou. Quando ligaram da portaria avisando que havia chegado um sedex para mim, desci correndo ansiosa, com o coração acelerado. Peguei a caixa, agradeci e subi correndo de volta para casa, sentindo uma sensação de euforia em saber que naquela pesada caixa que carregava em meus braços havia tantas lembranças guardadas, a história de uma vida registrada em imagens. Era como se estivesse recebendo um presente da Vitória. Como se ela nos dissesse: tive que partir, mas deixarei para sempre com vocês lembranças inesquecíveis, doces e preciosas desse tempo maravilhoso que vivemos juntos. Um presente para vocês sempre lembrarem de como valeu a pena.

Abri a caixa rapidamente e Marcelo e eu não nos contivemos, vimos uma a uma, enquanto ríamos, chorávamos, mostrávamos as fotos mais lindas um para o outro enquanto relembrávamos tantos momentos importantes que iam surgindo diante dos nossos olhos. Temos realmente muitas fotos dela! Conseguir imprimi-las me ajudou a relembrar tudo o que vivemos com ela em um grande panorama. Sua vida foi longa, foi linda, intensa, perfeita, maravilhosa. Os meses na UTI Neonatal, os banhos, as primeiras mamadas, a vinda para a casa, as primeiras papinhas, os sorrisos, exercícios, brincadeiras, passeios, viagens, internações, momentos de luta, momentos de ternura e descanso, momentos de vida.



Ter a fotografia em mãos parece tê-la um pouco mais próxima, sentir a lembrança da sua pele clara e macia, seus cabelos encaracolados e perfumados. Percebemos o quanto sentimos sua falta. O quanto minhas mãos têm saudade de acariciar seus cabelos. Meus braços têm saudade de carregá-la junto ao meu corpo, sentir seu queixo apoiado em meus ombros e seus braços agarrados aos meus, como ela ficava. Minha boca tem saudade de beijar suas bochechas e falar com ela. Meus ouvidos têm saudade de ouvir sua voz me chamando de manhã com um chorinho adorável. Saudade de escovar seus dentinhos com pasta de morango e sentir sua saliva em minhas mãos, e na ponta de meus dedos, a textura de seus dentinhos afiados. Estranho lembrar tantas coisas, mas se fechar um pouco os olhos consigo lembrar de tudo, tudo, tudo... suas perninhas fortes se movendo enquanto era trocada, a temperatura da sua pele e seus olhos iluminados com cílios enormes derramando ternura. Lembro da época da UTI, do cheiro da atadura com que enfaixávamos sua cabeça e da loção perfumada que passávamos em suas roupas. Lembro do peso do seu corpo, abrigado sobre o meu, em repouso.


Lembro da gestação, da sensação maravilhosa de senti-la mexer-se, de andar com orgulho com aquela pequena barriga onde carregava uma vida de muito valor, uma vida envolvida em amor e luz. Lembro com emoção da primeira vez que ela respondeu a minha voz, durante a gestação, num dia de manhã quando acordei triste e comecei a lhe falar o quanto lhe amava. Ela estava quietinha, como se dormisse, e comecei a repetir que lhe amava tanto, tanto, tanto, e as lágrimas começaram a surgir e de repente... TUM! Senti um chute muito forte... o que foi isso? É você, meu amor, é você! E mais lágrimas. Você ouviu que eu te amo, você ouviu!!! E assim ela continuou, tum, tum, tum, estou aqui, estou viva, estou aqui, eu existo, estou aqui, obrigada por me amar, eu também te amo, mamãe. 

Revendo tudo o que foi vivido, sem dúvida alguma, penso em como valeu a pena, como foi lindo, lindo como jamais podíamos imaginar que seria, incrivelmente transformador, as maiores e mais incríveis lições de vida que eu jamais poderia um dia conceber que teria.

Tudo isso que foi vivido é como um precioso tesouro, valiosíssimo, imensurável. Quando recebemos aquele diagnóstico triste, confuso, escuro e doloroso, e aquelas palavras duras e pesadas que ecoavam em nossos pensamentos nos dias seguintes, como pedras enormes que despencavam em nossos corações e sacudiam nosso espírito de desespero e pavor, quem poderia imaginar que estávamos recebendo em nossas vidas um presente tão lindo e especial? Um anjinho cheio de luz, de vida, de amor e ternura? Que mais bem ela nos faria do que nós a ela?

Nós não imaginávamos, naquele momento. Tudo que eu conseguia apenas era chorar pela morte iminente da minha filha e pedir a Deus que fizesse um milagre, que não veio da forma como eu esperava. Mas de alguma forma me recusei a aceitar o que diziam, me recusei a acreditar que aquela vida não tinha valor a ponto de poder ser encerrada tão rapidamente, sem chance de se guardar lembranças, de receber um nome e alguns meses de vida. Aos poucos fomos aceitando aquele diagnóstico da malformação, mas não da forma como nos era passado... minha bebê não era uma monstruosidade que somente me faria sofrer e correr risco de vida, não era incompatível com a vida, ela era cheia vida, talvez mais do que todos nós juntos.

Então receber a Vitória em nossas vidas foi como receber em minhas mãos uma pedra dura, escura, e então perceber que aquilo era apenas um embrulho pintado pelo olhar das pessoas, pelo preconceito, pela incompreensão e pelo medo, e na verdade por baixo dessa imagem criada, estava uma pedra preciosa, brilhante, delicada e rara. Estava minha filha, minha bebê, meu amor.

O que posso dizer para quem me quiser ouvir, a outros pais como nós, é que tenham coragem de olhar além da superfície e das aparências. Não é fácil, eu sei que não é fácil, eu sei que dói, dói muito, mas quando você conseguir enxergar o tesouro precioso que seu filho é, quando você conseguir se libertar das aparências e julgamentos para amar sem limites esse filho, a força e a coragem que inundarão seu coração vão te levar a qualquer lugar, vão te dar forças para viver tudo que precisa ser vivido. Amor gera mais amor e mais força.

Não é fácil deixar partir um anjo, não é nada fácil aceitar que aquele tesouro tão precioso agora precisa partir. Mas hoje se eu pensar no que Vitória teria dito a mim se pudesse falar, antes de partir, talvez seria: mamãe, papai, sejam fortes e corajosos! Deus está sempre com vocês. Obrigada por me deixar vir. Obrigada por me deixar ir. Sejam fortes e corajosos. Amo vocês.




sábado, 16 de março de 2013

A história de um quadrinho e a breve história de uma vida



Olá queridos amigos! Achei este post que estava parado e esquecido desde algum mês incerto do ano passado, nos rascunhos do blog. Acho que na época não soube bem como concluir. Hoje reli, gostei e decidi terminar estas reflexões e dividir com vocês. No fundo é a mesma história de sempre, a nossa história, (afinal qual mais seria?), mas tão boa de lembrar, contar, agradecer e reaprender.

Não tenho nenhuma citação para dividir hoje aqui, entre as fotos, somente gostaria de agradecer muito cada 
comentário aqui deixado, todos sempre me emocionam e alegram, e  fico muito feliz quando abro o blog e vejo que alguém deixou um recadinho mesmo não havendo novas postagens. Muito obrigada! Fiquem com Deus e ótimo final de semana!




Antes de nossa amada Vivi nascer eu pintei um quadrinho para ela, com seu nome, para colocar na porta do quarto da maternidade. Na verdade, ela nunca entrou por aquele quarto para ficar comigo. Nenhuma enfermeira a trouxe envolvida em uma mantinha para eu ali acalentá-la, para me ensinarem a trocá-la, dar-lhe banho ou amamentá-la. Havia um bercinho no quarto, mas ficou vazio. Acabamos usando-o para apoiar nossas bolsas.

Mas a pintura era a imagem de uma menina feliz e bonita - era assim que eu imaginava minha pequena menina. Mesmo que talvez ela não tivesse essa aparência exterior, queria pensar nela desta forma, queria pensar que em sua personalidade e sua alma ela era linda e feliz. Quem sabe um dia no céu eu a encontrasse assim, uma mocinha linda e feliz! 

Estranhei que no corredor do quarto onde eu estava na maternidade, não havia outros enfeites nas portas, e desconfio que talvez minha médica tenha tido o cuidado de pedir que me colocassem distante dos quartos onde outras mães estavam com seus bebês, para não aumentar a dor da perda da minha filha, afinal, estávamos preparados para tudo, até mesmo para o fato de que ela poderia nascer já sem vida. Ou foi coincidência, não sei... De qualquer forma ela e todos os que me atenderam foram muito sensíveis, humanos e atenciosos.

Mas já que a menininha não podia ir até o quarto onde estava o quadrinho, o quadrinho foi até o quarto em que ela estava. Fiquei muito orgulhosa de deixar seu enfeite lá, não somente por um dia, mas por 5 meses, ao lado do bercinho em que ela estava no hospital. Para nossa surpresa ela veio para casa e o quadrinho veio junto. E continuou por mais 2 anos e um mês ao lado do seu berço, onde todas as noites ela dormia.  Sim, a menininha veio para casa, depois de fazer uma cirurgia, mas era carequinha, com uns fiapinhos de cabelo espetadinhos crescendo ao redor de uma imensa cicatriz.

Mas após dois anos e meio, ou melhor, 916 dias, finalmente aquela previsão que um dia os médicos me deram aconteceu: minha filha morreria. Sim, eles estavam certos! Minha filha morreu! A previsão deles só sofreu um pequeníssimo atraso de 2 anos e meio. Ah, mas o que são dois anos e meio para uma mãe? Sim, ela tinha vida dentro do meu útero e por 2 anos e meio ela continuou viva, mesmo fora dele. Por si mesma ela respirou, seu coração bateu e uma grande sinfonia começou a ser executada, em meio a uma imensa complexidade de processos biológicos, produção de hormônios, enzimas, divisões celulares, tudo seguiu em frente como se estivesse sendo coordenado perfeitamente por uma orquestra que tem um bom maestro à sua frente. Ah, mas o que é a vida de um filho que nasce com grandes necessidades especiais? Vai ser um grande sofrimento, um peso para a vida toda e, provavelmente - sim, um dia alguém disse isso e todo mundo passou a repetir como bons papagaios bem treinados - provavelmente essa criança não sente nada! Não tem noção alguma de quem é, de quem são seus pais ou do que acontece ao seu redor. São tudo reflexos. Hum... interessante. Será que nossos bebês recém nascidos "normais", "perfeitos", "supersaudáveis",  todos já nascem com uma consciência perfeitamente desenvolvida, cientes de quem são, quem são seu pai e sua mãe e tudo o mais? Ah, não? Um bebê age principalmente por reflexos? Sério? E ele vai aprendendo, interagindo com sua mãe, sua família, com o meio e com as pessoas ao seu redor? Hum...

Bem, aquela menininha que não sentia nada e era só reflexos começou, por meio dos seus reflexos, a nos dizer que apreciava muito quando era carregada no colo. Que apreciava muito estar em contato com o corpo e a pele da sua mãe e do seu pai, e isso a acalmava e fazia sua respiração melhorar. Que às vezes ela não queria virar de lado no berço e ela também não gostava de espirrar. Ela chorava! Ah, mas o que é um choro de criança para uma mãe? Um choro que vem de uma criança que nem deveria viver! Mas aquela menina também começou a sugar. Lá estava ela sugando a sonda desde seu primeiro dia de vida! E quando compramos sua primeira chupeta, mal cabia na sua boca e tínhamos que ficar segurando para não cair, mas ela amou! Quem sabe se alguém tentar lhe dar leite na mamadeira? E não é que a menina conseguia sugar, engolir e ainda respirar, e fazer uma coisa de cada vez sucessivamente de forma que tudo fosse para o lugar certo. Ah, mas o que é ver um filho sendo alimentado, para uma mãe? Um filho que faz tudo somente por reflexos e que nem vai viver muito tempo! 

Bem, para mim estes foram alguns dos momentos mais lindos, únicos e inesquecíveis de minha vida.


E aquela criança começou a viver um minuto após o outro, um dia após o outro, uma semana após a outra, a tomar banho, abrir os olhos, mover braços e pernas, abrir e fechar a boca, soltar a voz de vez em quando, segurar nossas mãos e se abraçar ao nosso corpo quando a abraçávamos. Bem, tudo reflexo? Talvez. Mas aquela criança começou a mostrar que podia sentir dor e também sentir prazer, chorava e se esticava quando ouvia a voz da sua mãe. Estranhava se seus pais ficassem ausentes por muito tempo, se algum deles não chegasse durante a manhã na UTI, lá estava ela de olhos abertos e inquieta, até passava mal.

Apesar de os grandes cientistas, doutores, Phds, os mais renomados e conceituados médicos do país  repetirem categoricamente que um bebê como minha filha não sente nada, que não tem cérebro, logo é puramente reflexos, e não precisa ser considerado um ser humano vivo, logo não precisa ser amado, protegido, respeitado e amparado, ao longo da sua vida e da sua morte, bem, a minha filha me mostrou o contrário. E a sua opinião e os seus sentimentos têm muito mais importância para mim do que o parecer de um médico renomado, conceituado, cientista, doutor, Phd, e qualquer outro título que me inventem para impressionar.

Geralmente a gente tem um script de como as coisas devem ser na nossa vida... geralmente a gente idealiza como será ter um filho, antes mesmo que ele seja gerado, ou enquanto o espera. Às vezes as pessoas idealizam mesmo, esperando que seja tudo perfeito como num conto de fadas. Outros são mais atentos para a realidade, sabem que nem tudo é fácil, que ter um filho implica em responsabilidades, desafios, sacrifício e muita entrega. Mas que mesmo assim é maravilhoso. E dentro de sua idealização conseguem prever dificuldades: um bebê que vai chorar de cólica à noite, pode ter brotoejas no calor, alergias, pode pegar uma infecção de ouvido ou outro problema qualquer de vez em quando.
Talvez essa criança tenha medo de ir para a escolinha no primeiro dia ou que tenha alguma dificuldade de aprendizado ou de comportamento. Talvez ela seja birrenta e se jogue no chão do shopping esperneando,  querendo um brinquedo. Mas acreditamos que tudo será sempre dentro de uma normalidade e vai se resolver facilmente. Certamente haverá um livro falando a respeito, com algum especialista nos dizendo o que fazer. Certamente haverá alguém que já passou por isso e tirou de letra, nossas mães, nossas amigas mais velhas, uma mamãe blogueira famosa, ou quem sabe um médico saberá como resolver o problema.

É interessante que nem tudo na vida é assim. Talvez eu me arriscaria a dizer que nada na vida é assim. A vida não é perfeita e idealizada como imaginamos. Nem nossos filhos. Porque somos únicos, sempre teremos que escrever nossa própria história e por mais que haja milhares pessoas que viveram situações parecidas, teremos que encontrar o nosso caminho, aprendendo a lidar com os problemas que a vida nos apresenta. Aprendendo a criar e dar o nosso sentido e valor para tudo que é vivido.

Lembro quando a primeira médica nos informou que nosso bebê tinha um sério problema. Ela foi muito sensível e feliz em conseguir nos passar essa informação, e nos deixou claro que tínhamos uma escolha a fazer. Eu pensei que precisaria saber de minha filha se ela realmente não teria condições de viver. Se ela realmente queria abreviar o seu ou o meu sofrimento. Muitos médicos nos deram diversas opiniões, alguns de maneira muito infeliz, mas nenhum deles poderia substituir o direito que minha filha tinha de se manifestar e mostrar para que tinha vindo a esse mundo.

Sabendo que seu tempo poderia ser tão breve conosco, tivemos que aprender muitas coisas rapidamente.  Tivemos que conversar com ela. Nossa primeira conversa séria de mãe para filha foi aos 3 meses e meio de gestação. Talvez não houvesse tempo de conversar mais no futuro. Tive que falar para ela sobre a vida, sobre doença e morte. Sobre escolhas da vida e sobre coisas que estão fora do nosso controle. Sobre fé, amor e esperança. 

Sei que muitos adultos não se sentem à vontade em falar sobre determinados assuntos com as criança e às vezes preferem desconversar, dar desculpas, criar versões um pouco irreais... mas quando é sua filha que vai morrer? Quando é preciso falar sobre despedida aos 4 meses de gestação? Temos que falar e tentar tornar aquele momento especial, pois talvez sejam os nossos únicos momentos. Talvez por isso amadurecemos muito. Nove meses valeram mais que nove anos. Talvez mais que noventa anos.

Vitória e eu fomos nos tornando amigas e companheiras. Saíamos para passear, fazíamos as refeições juntas, eu lhe contava que estava lavando suas roupinhas, pintando seu enfeite de maternidade, me preparando para sua chegada. Até limpávamos a casa juntas, pois a situação não estava nem um pouco fácil e não havia como pagar alguém para isso. Muita coisa pôde ser vivida em 6 meses, em meio a alegrias, coisas engraçadas, momentos de choro e apreensão, até percebermos que éramos livres e podíamos sorrir e ser feliz. Dançar na chuva no meio da tempestade.

Mas chegou o momento de nascer e lhe falar novamente sobre as possibilidades: "Filha, amanhã você vai nascer. A médica vai abrir a barriga da mamãe e retirar você daí. Não sei o que acontecerá depois. Talvez Papai do Céu venha te buscar. Se isso acontecer, não tenha medo. Ela vai te tomar pela mão e te conduzir, te levar para o céu. Saiba que eu te amo muito, e que foi maravilhoso ser sua mãe, cuidar de você... um dia também vou partir, e então irei até você e poderei te dar um abraço bem, bem apertado. 
Mas tenho pedido a Papai do Céu que deixe você ficar. Que cure o probleminha na sua cabeça, que faça um milagre. Ele ainda não me respondeu (pausa para respirar fundo). Se Ele deixar, e se você quiser ficar, saiba que eu estarei aqui pra cuidar de você. Eu te amo!"

E assim foi. Com seus reflexos, ela sempre me entendeu, me ouviu e respondeu. Com seus olhos, com seu corpo, com suas mãos ela falava e interagia. Eram reflexos? Sim, provavelmente. Reflexos de amor, reflexos de humanidade, reflexos de vida. Afinal, ela veio até nós para brilhar!




Ah, e que fim levou o quadrinho nessa história?? Bem, ele ainda está aqui em seu quarto, perto do seu berço e das muitas bonecas que guardam o local em que ela dormia. É sempre bom olhar para esse cantinho e lembrar da minha menina. Sim, pois no quadrinho está pintada uma menina que lembra bastante minha filha na idade que tinha quando partiu: cabelos dourados, fofinha, com duas chiquinhas e um sorriso lindo de menina feliz. Hum... Como eu um dia sonhei! ;-)


domingo, 3 de março de 2013

Saudade, ausência, esperança e sonhos

"O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida". Jean Jacques Rousseau



Por estes dias a saudade está batendo forte aqui nos nossos corações... saudade desta pequenina que se tornou nossa companheirinha, que estava sempre com a gente lutando, sorrindo, dando coragem e ânimo com seus lindos olhos cheios de vida. Faz tanto tempo que não a pegamos no colo, não damos um beijinho em seu rosto. Tanto tempo que não penteio mais seus lindos cabelos e faço chiquinhas, nem lhe dou um banho gostoso e durmo abraçadinha com ela em meu peito. Difícil encarar o fato de que vai levar tanto tempo para lhe dar novamente um abraço e um carinho.


***

Essa semana abri uma gaveta com as suas roupinhas, peguei alguns bodies tentando encontrar seu cheirinho... não costumo fazer isso com muita frequência, mas às vezes é preciso. Senti o cheiro das suas roupas, sim, mas o seu cheirinho não está mais ali. Peguei algumas peças mais do fundo e encontrei uma com um fiozinho de cabelo, pequeno e dourado, o seu cabelinho... que eu penteava e fazia chiquinhas e ela ficava linda.

Ah, pequeninha, mamãe te ama tanto, que Deus te abrace e te beije por mim, você nunca será esquecida em nenhum dia das nossas vidas.

***


A vida ficou mais estranha e um tantinho vazia, com um pontinho a menos de brilho nas cores, desde que ela se foi. Parece que a gente vive um filme com aquelas imagens meio esfumaçadas, aquelas cenas estranhas que a gente não entende logo de começo se é um sonho, se é uma lembrança, se é o presente. É uma coisa esquisita, é uma sensação sem nome e sem definição. Isso é a ausência. É diferente da saudade, que tem tantas cores e cheiros, que tem temperatura, textura e até música de fundo... A saudade vem quando olhamos para trás e lembramos momentos bonitos vividos. Até sorrimos. A ausência vem quando percebemos que não dá pra viver no passado, olhamos para o presente e encaramos que aquela pessoa que amamos não está mais aqui com a gente. A ausência me parece um vazio duro e seco, um não sei quê, que dói.

***

O nosso tempo acabou e é tão doloroso encarar isso, lembro quando ela estava na UTI, e passar uma noite inteira longe dela era tão difícil, ter que partir e deixá-la aos cuidados das enfermeiras. Já conhecíamos todas muito bem, e quando elas estavam de folga e vinha uma técnica nova, eu ficava mais insegura, passava a ela todas as recomendações, como ela mamava, como era a temperatura, os cuidados para ela não vomitar, como gostava de dormir, a necessidade de reportar qualquer alteração para a enfermeira chefe. E então a gente vinha para casa, com o coração apertadinho, mas com a promessa de que no dia seguinte voltaríamos.

Sempre eu que partia e lhe dizia que me esperasse. O único momento em que ela é quem partiu foi para a sua cirurgia, com quatro meses. Eu fiquei desde a madrugada com ela em meu colo, bem apertada contra o meu corpo, lhe aquecendo e lhe dando amor. Expliquei-lhe sobre a cirurgia, e lhe disse várias vezes: eu vou estar aqui te esperando, por favor volte, estarei aqui! E ela voltou! Entre alegria, alívio e medo, vivemos tantas situações difíceis, tantos sufocos, saltamos montanhas e cruzamos mares juntas.



***

Como é importante uma despedida.

Na véspera da sua partida, a última noite em que ela dormiu aqui em casa, após ela mamar seu leitinho com frutas antes de dormir, eu deitei no sofá e lhe dei um colinho. Às vezes eu gostava de parar tudo por um tempo e lhe dar colo, como quando ela era bebezinha. Quando pequenina eu lhe dava colo na maior parte do dia, mas ela foi crescendo, ficando maior, foram surgindo mais atividades, tarefas e a vida foi tomando uma rotina normal. Mas de vez em quando eu lembrava, ela ainda é minha bebê e preciso ter esse tempo com ela.

Na sua última noite aqui em casa, eu a peguei no colo e fiquei acariciando seus cabelos. Falei mais uma vez que lhe amava, disse palavras de carinho. Já era tarde. O Marcelo apareceu, me chamando para ir dormir, lembrou que já era tarde. Eu disse a ele que estava tão bom estar ali com ela, lhe dando um colinho, era tão maravilhoso. Eu disse a ele: dá vontade de ficar aqui para sempre! Sempre era bom estar com ela, mas naquele momento parecia mais especial, uma sensação de coração cheio de paz e plenitude, de sentir que  conseguíamos nos entender tão bem e expressar o quanto nos amávamos. Então levantei, coloquei-a em seu berço, fiquei lhe observando. Ela pareceu meio incomodada na hora que lhe deitei, parecia que também queria continuar no meu colo. Mas logo se acalmou e dormiu. Foi uma das madrugadas mais frias do ano.

E no dia seguinte tudo aconteceu. Foram momentos bem difíceis, ela acordou já em febre alta, com dificuldades para respirar, parecia muito sério. Pela primeira vez desde que ela viera para casa, ligamos para a emergência chamando uma ambulância. Não souberam dizer em quanto tempo chegariam, então preferimos envolvê-la em uma toalha de banho e ir de carro correndo para o hospital. Ainda estava escuro e fazia muito frio, mas ela ardia em febre. Eu só lhe dizia que tudo iria ficar bem, que logo ela se sentiria melhor. E ela nunca mais voltou para casa.

Nós ainda pudemos nos despedir, no hospital, quando ela estava já sedada, lhe beijamos e dissemos o quanto lhe amávamos. Cantamos e oramos segurando sua mãozinha antes de ela partir. Mas de alguma forma a nossa despedida mais especial foi aquela, ali no sofá da sala. Talvez nossos corações já soubessem de alguma forma que aquela era nossa última noite juntas, nosso último colinho e momento de mãe e filha juntas e felizes. De alguma maneira queríamos congelar aquele momento para sempre. Mas é preciso seguir em frente, não dá pra parar a vida nos melhores momentos. Os dias difíceis vêm, os dias de despedida também chegam. Como os pessimistas afirmam triunfantes, nem tudo na vida são flores.

Foi muito bom nos despedirmos. Sabe quando alguém parte para uma longa viagem, e você dá todas as recomendações e fala tudo que é importante, pois sabe que ficará muito tempo sem ver a outra pessoa?
Foi assim. Não sabíamos, mas já sabíamos, de alguma maneira.

As preocupações passaram, a correria do dia a dia, os olhares curiosos e inconvenientes que tantas pessoas já lançaram, os comentários azedos e amargos, e até mesmo os doces, tudo isso passou. Os momentos de "blog popular" também passaram, os elogios, tudo isso passa. Muitas coisas mudam.

Ficou somente o amor que foi vivido. Esse amor profundo que jamais se tornará fora de tempo. A lembrança de seu último dia de vida em que eu preferi deixar a casa bagunçada e a louça por lavar para aquecê-la em meus braços, e nosso momento "de querer ficar aqui pra sempre". 

Tenho tantas coisas a aprender, a fazer, a mudar e a crescer. Claro que este blog  não é um confessionário e as pessoas criam uma imagem idealizada, gostam de levantar heróis (e também vilões), recebemos muitos elogios e na verdade somos somente pessoas comuns e anônimas, que têm que batalhar e trabalhar e enfrentar dias difíceis e encarar os próprios erros e limitações. 

Mas agradeço muito a Deus pelos momentos de lucidez e clareza em que escolhemos ficar com nossa filha e amá-la. Por entender que todas as angústias e preocupações passariam, mas aquele zelo, amor e carinho valeriam pra sempre. Ninguém jamais vai tirar de mim o amor e as boas lembranças do tempo que vivemos com nossa princesinha. Podem passar décadas. Vai estar aqui comigo para sempre.

Nem tudo na vida são flores, é verdade. Por isso é tão valioso quando você tem uma flor em sua vida. É tão importante amar e cuidar com todo o coração da sua flor. 

***

Às vezes o que me consola é pensar que nossa princesa já estava cansadinha e vinha enfrentando algumas dificuldades. Que era preciso se mudar para o céu para o seu bem. Às vezes questiono a Deus por que ela teve que sofrer em alguns momentos, (isso é o que mais dói em meu coração) e em outras percebo que, se não fosse para poupá-la de sofrer, teria sido muito difícil ter aceitado a sua partida. Então agradeço porque tive o privilégio imensurável de viver tantas coisas maravilhosas com ela, durante muitos e muitos dias. Tento me apegar ao que pudemos viver e em como foi muito, muito bom. Foram muito mais dias felizes do que tristes. Muito mais.

*** 

Muitas vezes eu nem penso muito, apenas sigo em frente, trabalho bastante, vejo suas fotinhos, também beijo sua imagem dormindo em meu celular (menos frio que o porta-retrato) e me absorvo em outras atividades. Corro sem olhar para os lados.

Mas uma hora as lágrimas vêm. Demoram, mas vêm. Um dia fui falar com Deus e chorei, e quando vi estava chorando e perguntando: por que ela teve que sofrer, por quê? Aceito tudo que vivemos, aceito que ela tinha que nascer assim e partir, só não entendo por que ela sofreu. Fiquei surpresa ao ouvir aquelas palavras. Eu não tenho nenhum sentimento de revolta, sinto paz e falo sobre tudo que vivemos com muita naturalidade (às vezes até demais, para "escândalo" de alguns que se dizem "chocados"). Mas esse sentimento de dor estava lá e encontrou um caminho para sair do coração e chegar aos lábios, sem avisar, apenas saiu. E chorei.


***

No dia seguinte, estávamos no carro indo para algum lugar (que não me lembro), e estávamos ouvindo alguns louvores e cantando. Estávamos cantando "Vim para adorar-te", nos últimos versos: "Não saberei quanto custou ver meus pecados lá na cruz, não saberei quanto custou ver meus pecados lá na cruz..." Estava feliz cantando e de repente parei, e comecei a chorar...  ouvi saindo dos meus próprios lábios que haviam feito a pergunta um pouco antes, a resposta. Ela sofreu sim, e por meio dessa dor absurda e imensurável, pude entender, um pouco, o que Jesus sofreu. De fato não saberei nunca o que Deus sentiu vendo seu filho ali sofrer, sendo torturado e executado estupidamente, sofrendo sozinho, sem poder receber um abraço, um carinho, um consolo ou um alívio. Sozinho. Apenas consigo imaginar, um pouco, agora.

Em meio a muitas lágrimas agradeci a Deus por não me sentir só e por Jesus ter vindo a este mundo se revelar e se humilhar entre os homens para que pudéssemos então dar um primeiro passo para longe da nossa arrogância, em direção à volta para casa.


***

Às vezes eu sonho com a minha querida filha. Geralmente são sonhos muito confortantes, e acordo com um calorzinho no coração. Duas semanas após ela partir, eu sonhei que estava me aproximando de meu quarto e vi o Marcelo ajeitando ela sobre a cama. Pensei: como que ela veio parar aqui, se ela morreu? Então eu a vi começando a se mexer e se espreguiçar todinha. E gritei muito alto (no sonho): Filha, você voltoooou!!!!!!! enquanto pegava sua mãozinha que estava acabando de se esticar. Quando a toquei, senti sua mão quente, e senti esse calor imediatamente em meu peito, muito real. Então acordei, rapidamente, como se voltasse de um mergulho profundo. Acordei sentindo aquele calor gostoso em meu peito e uma lagriminha no canto do olho.

Senti como se fosse a mão de Deus aquecendo meu peito. E a Sua presença muito forte neste sonho, um novo ânimo e consolo, me dizendo: Não deixe de crer, não deixe de enxergar além do que seus olhos podem ver. Ela vive.




*** 

Desde então todas as vezes que sonhei com ela, ela estava sempre viva e curada de todas as suas deficiências, ou eu a via ressuscitando, voltando à  vida. Uma vez ela bateu palminhas para mim, outras vezes estava engatinhando e fazendo arte, subindo nas coisas... em outras eu a abraçava muito e beijava. Uma vez, porém, sonhei que ela estava com frio e depois esquentou demais e eu estava aflita tentando ajudá-la! (pesadelo). Afinal, sonhos são sonhos. Não vou dizer aqui que querem dizer qualquer coisa além de que estes são os sentimentos que sempre tive por ela e como eu sempre a vi: perfeita e cheia de vida. E como eu ainda a vejo, e creio. Também acho que é uma forma que nossa mente encontra de matar essa saudade imensa e infinita. E é, sem dúvida, um presente de Deus revivê-la em meus sonhos.


***

Aqui neste cantinho, no Blog da nossa princesinha, é muito bom poder relembrar, reviver, e sentir todo esse amor tão bonito que pudemos viver com ela, que foi um momento precioso de nossas vidas.

Outro dia encontrei esta frase e achei que fazia muito sentido com a vida de nossa filha. Não sei realmente em qual contexto ela foi dita e por qual motivo, mas por si só possui um sentido especial. 

"O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida". Jean Jacques Rousseau

Nossa princesa teve uma vida breve para este mundo, mas sua vida foi preciosa e intensa, e marcou a todos nós.



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